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Por Cine Djanga (o “D” é mudo)
Assisti a Acampamento Miasma – Adolescência, Sexo e Morte, e confesso que passei a maior parte do filme sem entender nada. Pensei: ok, ou sou burra ou as pessoas que estão comentando estão fingindo entender para parecerem intelectuais, já pretendendo fazer o mesmo. Mas lá para os 2/3 de filme (pelo menos para minha inteligência potencialmente limitada), você começa a achar que entendeu alguma coisa e percebe que a resposta estava, a todo momento, na sua frente, no bilhete do ingresso, no nome do filme: Adolescência, Sexo e Morte.

Acampamento Miasma é, na minha humilde interpretação, sobre a transição da adolescência para a idade adulta e toda a descoberta que a acompanha, nebulosa, confusa e amedrontadora. E o filme não narra esses sentimentos de forma habitual, ele os pinta e os transforma em uma obra a ser decifrada. Por isso é nebuloso, confuso e amedrontador.
A todo momento, unem-se referências à infantilidade e à ingenuidade remanescentes da adolescência, como doces espalhados pelas cenas, jantares de junk food e baseados (não sei como os jovens chamam hoje), a referências à identidade de gênero, ao sexo e à autodescoberta como pessoa adulta.
Temos duas personagens principais: Kris, uma jovem cineasta fissurada por filmes slasher, que, para fazer uma refilmagem de seu slasher favorito “Acampamento Miasma”, pretende convencer Billy, a atriz principal do filme original, agora madura (coroa) e reclusa, a participar do projeto. Ambas passam a representar tudo o que acontece entre o deixar de ser quem é e o definir-se e tornar-se adulto. Entendo que as duas possam representar uma à outra, em fases diferentes: uma que ainda não sabe responder quem ela é de verdade, e outra que entende exatamente pelo que ela passa, por já ter estado em seu lugar, guiando-a em sua jornada de autoconhecimento. E o que acontece na adolescência que define esta fase e o início de sua passagem para a fase adulta? O sexo.
O aflorar da sexualidade, o descobrir do então desconhecido e, por que não, perturbador. Não se sabe o que está acontecendo, apenas que é instintivo, nem sempre compreendendo que é natural. É uma fase que traz um crescimento obrigatório, solitário, assustador e irresistível. Trata-se de (não) entender o que está acontecendo com a pessoa que você foi até então e com a que está se tornando. A perda e o nascimento de uma nova identidade. O luto e a descoberta.

O Acampamento, assombrado por um monstro, traz muitas imagens de sangue jorrando no melhor estilo Tarantino (ou melhor: no estilo que inspirou Tarantino), que representam a morte (como mulher cis, não consigo deixar de ler como a representação de um grande rito de passagem feminino: a menstruação). Mas, para cada um de nós, a chegada do monstro acontece de forma diferente, sendo instintivo lutar ou correr (ou fingir-se de morto, o que eu faria). Mas desse monstro não há como fugir. Ele está dentro de nós. Aí está a confusão da adolescência.
Billy, então, como uma mentora, veterana do Acampamento Miasma, que já fez as pazes com seu monstro e mora, sem medo, onde este habita, insiste que Kris descubra tudo por si mesma, encorajando-a a “olhar embaixo da cama” ela própria, em vez de convencê-la de que está tudo bem. E assim ela guia a jovem em seu despertar sexual, fazendo-a entender que se entregar faz parte da descoberta do próprio prazer.
E Kris passa a entender que o prazer não é lógico, e sim instintivo. É tudo tão relacionável que não me parece que o tema central deva ser reduzido a um filme queer. O queer aparece como uma forma de autoconhecimento e aceitação, para mostrar as infinitas possibilidades do ser humano, que não deve ser definido por um único molde, no qual não há espaço para ser verdadeiro. E a experiência sexual entre Kris e Billy é, em verdade, a compreensão dos desejos da jovem, que não podia ser ensinada por ninguém, senão experimentada por ela mesma. E aí está a parte do sexo.
Finalmente, quando a aceitação da própria identidade acontece, vem a tranquilidade de se conhecer após ter passado pelos ritos e medos incontornáveis da vida. Se o que assusta é aquilo que não se conhece, o monstro já não assusta mais. Já é possível se enxergar como espectador de si mesmo, olhando diretamente nos olhos da própria sexualidade e identidade.

Fazem-se as pazes com o próprio corpo, entendendo que o ser que vive no íntimo sempre estará lá. E assim a confusão da adolescência vira um filme nostálgico em sua vida, no qual se lembra dos receios sem aflição, pois já se tem a certeza de que tudo ficará bem. Aí está a morte. A morte de uma fase, a morte de um “eu”. A morte da insegurança, do desconhecido.
O Acampamento é, na verdade, uma jornada em forma de terror. O terror necessário para crescer, para se definir. O fugir de um monstro incompreendido e, por fim, entregar-se a ele e compreendê-lo. É o acampamento em que não há necessidade de retornar, assim que você sai vivo.
A beleza do filme está justamente em possibilitar diversas interpretações. E a minha foi essa. Como foi o seu Acampamento Miasma? Entendeu outra coisa? Não entendeu nada? Eu fui muito sensível? Deve ser porque estou na TPM…