Escrito por Djanga Baiana (o D é mudo).
Alerta de spoiler
Bugonia chegou ao streaming e meu conselho é: assista.
Gosto de filmes diferentes, que saem do óbvio e arriscam um escape da verossimilhança para nos trazer um entretenimento de respeito, e Bugonia é um sopro de novidade no coraçãozinho do cinéfilo que andava desanimado com os lançamentos atuais e com a enxurrada de produções “grandiosas” e preguiçosas dos serviços de streaming. Yorgos Lanthimos deu uma de Britney Spears e did it again. Um salve a Jesse Plemons, Aidan Delbis e, surpreendentemente, Alicia Silverstone.

Para começarmos a falar de Bugonia, pesquisei o significado para que você não precise: “é um antigo mito e prática ritual descritos por autores da Grécia e Roma antigas. Refere-se à crença na geração espontânea de abelhas a partir do corpo de um animal morto, geralmente um boi”.
O filme tem nome relativo às abelhas, fala de abelhas, tem abelhas (ótimas atrizes), mas tem tudo a ver conosco e com a nossa colmeia societária formada pelos operários, pela realeza e pelos zangões (que, convenhamos, estão saindo de moda).
A questão é: está rolando alguma coisa com as abelhas e elas estão desaparecendo, o que é preocupante, pois, sem polinização, há um colapso de ecossistemas e, aparentemente, blá blá blá ninguém se importa. Exceto os dois malucos do filme que sequestram uma executiva de alto escalão, entendendo ser ela uma extraterrestre que está no comando velado do que acontece com o nosso planeta (e conosco).
Essa dupla busca um link entre a refém e sua nave-mãe, mantendo-na em cárcere, realizando uma série de rituais específicos para os adromedranos (que é o que eles pensam que ela é). Tudo muito bem pesquisado e empírico – pois alguns “andromedranos” já sofreram na mão da dupla (também) – e… bem executado? Bom, acho que eu não faria melhor…
Como os únicos que enxergam a verdade, o sucesso da missão depende da discrição. Os dois agem sozinhos, isolados, não tendo nem mesmo a credibilidade do público que os assiste, que segue comendo sua pipoca com 1litro de refrigerante, achando que os dois são uma espécie de Megan-criadora-de-abelhas-Markle.
São dois anti-heróis absolutamente confiantes de que são a esperança da humanidade, nos livrando da manipulação e da extinção, sem esperar louros por isso. De forma altruística, em nome de todos nós, ignorantes, planejaram detalhadamente e buscam negociar com os adromedranos termos justos para todas as partes.
Já com a pipoca na metade, passamos a esperar a parte em que a executiva irá convencê-los a deixá-la escapar, pois, claramente, ela é vítima por engano. E a gente fica ali aguardando o momento em que os sequestradores vão levar a pior e tudo vai se resolver com um toque tragicômico. E é isso que acontece.
Mas não do jeito que você pensa.
A comunidade científica especializada lhe avisou: não estamos sozinhos no universo. Mesmo assim, ninguém acreditou nos esquisitões do filme. Nem eu, nem você, nem sua mãe. Todos achávamos que eles tinham comido cocô e que o sequestro da pobre executiva rica fora uma maluquice. Mas aí… aconteceu. E.T.s existem e até andam de bicicleta pela Lua. Tudo estava correto até agora, só que ao contrário.
Os dois doidos de cabelos ensebados estavam certos. EM TUDO. Talvez devêssemos ter tido um pouco mais de fé nos loucos solitários (tem algum outro tipo?). Acabou que eles dançavam em silêncio, mas era a gente que não ouvia a música.
Aí começamos a pensar: será que sabemos quem está à frente do nosso destino? Será que a realidade é isso mesmo que vemos e vivemos dia após dia? Será que quem esmaga os diferentes sabe o porquê de o estar fazendo?
Já deveríamos saber, com o passar do tempo e com o escrever da história, que nem sempre o senso comum está correto. Mas entendo que enxergar o diferente, o esquisito, nos remove do medo de sermos ridículos e nos dá a capacidade de duvidar de nós mesmos. Sem a dúvida, só há certeza, e na certeza não cabe todo mundo.
Hoje funcionamos conforme o algoritmo, que saiu dos 0 e 1 e nos diz o que pensar antes de dormir, o que fazer antes de tomar café e no que acreditar nos nossos cotidianos iguais. Nós mesmos somos capazes de nos salvar e nos extinguir, não precisamos de uma espécie intergalática para isso. Acho, inclusive, que nenhum tipo de espécie intergalática tem interesse em nosso destino. Toda vez que acham um sinal de rádio vindo de não sei onde, eles desligam o botão e se escondem rapidamente. Deus os livre de serem achados por nós.
Entendo que olhar para cima é inevitável (aí é outro filme rs), é curioso, é intrínseco ao ser pensante, mas esperar que o 3I/ATLAS nos dê um “alô” é muita prepotência. “Por que não mandam um sinal? Por que não aparecem aqui rapidinho?”Simplesmente porque não dão a mínima. Não estão nos procurando, já sabem onde a gente está.
Já nos viram dançando no TikTok, já viram Virgínia tentar sambar, o casal Vivini Jr., já viram Gretchen casar 123 vezes, já viram o suficiente de harmonizações faciais e de artista pintar a unha de branco pela paz. Viram a moda dos Labubus, viram que o café agora é gourmet, que temos uma adega de vinhos baratos (nada contra), cervejeira, sofá em “L”, uma lava e seca e uma máquina de café em cápsula. Os E.T.s querem distância! Quem não iria querer, se tivesse a opção? Vamos dar as mãos e nos conformar com nosso pequeno terrário, onde acordamos todos os dias achando que somos reis.
Você também acha que os zangões estão saindo de moda?
Não sei mais do que eu tava falando. Era de filme?