Artista: Madonna
“Mas, Djan, você não fala sobre música.” Eu sei, mas a boca (teclado) é de quem? Então pronto.
Por Djanga Baiana (o D é mudo).
O ser humano sem arte nem precisa existir. É ela que traz cor, alegria, felicidade, delicadeza, lágrimas, horror, angústia e sentido à humanidade que existe em nós… Diga o sentimento, a arte é capaz de despertar. “Ah, mas eu só preciso dos meus filhos para existir”, mas e eles? Só precisam de você? Eles precisam de arte!

De todos os tipos de arte, sendo sincera, a música e a dança são as mais belas, naturais e inatas ao ser humano(traindo a minha 7ª arte aqui. Se alguém repetir isso, eu nego até o fim, digo que foi o ChatGPT que escreveu esse texto). São as únicas artes que podemos levar conosco para onde formos e que podem acontecer até em uma ilha deserta, sem câmeras, sem produção, sem nada, pois osinstrumentos necessários carregamos em nós mesmos:nosso corpo e nossa alma.

Ninguém precisa conhecer e estudar canto para cantar. Ninguém precisa dançar bonito (nem “descolar” a bunda do corpo e fazer quadradinhos e afins). Basta cantar feio, se mexer estranho, seguindo o fluxo que pulsa dentro de você. Cantar uma música toda errada em espanhol (Shakira!), dançar sozinho no quarto são algumas das experiências mais próximas da liberdade.
E é aí que entra Confessions II, o novo disco de Madonna. Goste ou não, ouça ou não, eu vos digo que ela sempre foi a voz da liberdade. Por isso, seu público é majoritariamente gay, pois é na sua discoteca que todos se sentem seguros para serem exatamente quem são ou querem ser, porque convence a todos de que está tudo bem, basta cantar e dançar com ela. Mostra como é simples ser verdadeiro.
Confessions on a Dance Floor, lançado em 2005, é um disco irretocável que marcou uma geração e fez todo mundo cair na pista de dança, no repeat, sem hora para acabar, pois o disco não parava (ao pé da letra): era uma música seguida da outra, sem pausas, sem dar tempo de pensar em nada que não fosse curtir. Foi o melhor dos anos 80 trazido de volta, um sopro de novidade e nostalgia, uma obra de arte.

Em Confessions II, achei que Madonna iria voltar rendidaàs estrelas do pop atuais, moldadas no molde que ela mesma criou (como aconteceu nos álbuns anteriores da cantora). Mas não, ela voltou, majestosamente, nos lembrando do que já tínhamos esquecido: voltem para a pista de dança!
E voltamos, claro. Na primeira batida você se lembra de toda a magia vivida com Confessions on a Dance Floor, daquela época inigualável. E o discurso da faixa “I Feel soFree” é apenas o aquecimento para essa segunda parte de Confessions:
“Sinceramente, eu queria conseguir ser como as outras pessoas
E simplesmente não me importar.
Mas aqui,
Na pista de dança,
Eu me sinto tão livre.”
Daí para a frente, a danceteria está oficialmente aberta. E nossas inseguranças vão sendo esquecidas pouco a pouco. Você está em um lugar cheio de pessoas totalmente diferentes de você e, mesmo assim, não se sente julgado,pelo contrário, se sente apreciado. Você sente sua alma pulsar, sua aura brilhar. Você se sente livre. Até a nossa casa é uma gaiola. A pista de dança é o oposto disso.
A consciência de quem você é de verdade emerge com toda a força, e você sabe exatamente o que sua almaanseia. Sente o ar que entra e sai do seu corpo, a respiração do outro no seu pescoço e vê a beleza dos sorrisos mais autênticos. Sente-se dançando na chuva,mesmo sem cair uma gota sobre a sua cabeça, sente-se parte do universo coletivo, sente-se o próprio universo. Você percebe ser amado por si mesmo e tudo isso rodeado de pessoas que, naquele momento, são o mundo inteiro, e você é o mundo inteiro delas.
E a pista de dança vira uma torre de Babel ao contrário, pois a música substitui a linguagem e estamos a um passo do conhecimento profundo, mesmo sem sentir, sem os obstáculos da rotina, do trabalho, do whatsapp, dasdívidas, que são, obrigatoriamente, deixados na porta de entrada. Você está a um passo de cruzar a linha entre a chata realidade e se tornar quem você nasceu para ser. Na danceteria, você é livre, afinal. Cada movimento é por você e mais ninguém. E quando você compreende isso, ninguém consegue abalá-lo, pois você vibra alto.
Não é complexo: levante-se e dance. Mesmo dançando como um boneco de posto, sinta-se uma obra de arte. E para quem disser que você não é, mande para aquele lugar! Fale para ler nos seus lábios: ca-le a bo-ca. Sem violência, apenas com segurança. Como diz nossa Diva, se te mandarem à merda, pergunte onde fica, essa pessoa deve saber.
Feche os olhos. Sinta a melhor sauna que existe, a cura espiritual, a energia vital. Sinta-se ascender. É meia-luz, é neon, é complacência, é se reconhecer no outro, que não teria nada a ver com você na luz do dia, mas que, ali, naquele momento, é seu confidente.
Essa é a mais pura forma de amor ao próximo:compartilhar um momento de cumplicidade, se olhar e se entender, apreciar quem sabe dançar, botar para cima quem não o faz tão bem, é todo mundo do mesmo time, o da diversão. É a forma de amor que liberta, que entorpece, que completa. Amor sem palavras, pois ninguém se escuta na pista, de qualquer forma. Amor que vem de dentro e exala por todos os poros, o fogo interno que escorre pelas costas em gotas de suor, a perfeita visão da entrega.
Na pista de dança, esquecemos amores bizarros e celebramos os novos. Pedimos redenção por termos sido nós mesmos um amor bizarro e usamos desse momentopara curar as feridas sofridas e infligidas, e sermos absolvidos e regenerados, nem que seja por uma noite.Esse é nosso momento de escancarar que somos todos pecadores e que nossos pecados nos tornam exatamente quem somos: humanos e falhos e não há nada de errado com isso. Apenas confesse.
“Onde houver a maior escuridão,
É lá que você encontrará a maior luz.
(Então venha para fora, para a luz.)”
Everything, Confession II