Menopausa não é igual para todas as mulheres e pode ocorrer sem sintomas intensos

A menopausa é uma transição biológica que pode ser vivida de maneiras muito diferentes pelas mulheres e não necessariamente provoca uma sequência de sintomas intensos ou exige tratamento hormonal. A experiência de mulheres como Maria Esther Almeida, de 76 anos, mostra que a passagem pode ocorrer de forma natural e praticamente sem alterações relevantes no cotidiano.

A fisioterapeuta conta que seu fluxo menstrual foi diminuindo e os intervalos entre as menstruações aumentando até o fim do ciclo. Ela conversou com amigas, com o marido, que é médico, e com a ginecologista, mas não fez reposição hormonal e afirma que sua vida continuou normalmente.

O relato contrasta com a imagem da menopausa frequentemente associada a perdas, sintomas e necessidade de intervenções médicas. A experiência de Maria Esther, porém, não é uma regra, mas também não é um caso isolado. O Estudo da Saúde da Mulher em Todo o País (SWAN), uma das pesquisas longitudinais mais extensas sobre a transição menopausal, acompanha milhares de mulheres americanas desde 1994 e aponta que entre 60% e 80% apresentam ondas de calor ou suores noturnos em algum momento. Ao mesmo tempo, isso significa que entre 20% e 40% não relatam esses sintomas durante a transição.

O estudo também encontrou diferenças entre grupos étnicos. Mulheres negras relatam ondas de calor com maior frequência e por mais tempo, enquanto mulheres asiáticas apresentam índices significativamente menores, mesmo quando fatores de saúde e estilo de vida são considerados. Pesquisas realizadas com mulheres maias, no México, registraram ocorrência tão baixa do sintoma que algumas entrevistadas sequer reconheciam a descrição de calor súbito acompanhada de suor.

Para compreender essa diversidade, é importante diferenciar menopausa e climatério. A menopausa é uma data definida retrospectivamente: corresponde ao momento em que se completam 12 meses desde a última menstruação. Já o climatério é um período que pode durar anos, durante o qual os ovários reduzem gradualmente a produção hormonal antes e depois da menopausa. Segundo a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), existem cerca de 17 milhões de mulheres no climatério no Brasil, enquanto aproximadamente 9,2 milhões já estão na menopausa.

A ginecologista e professora universitária Eliane Flores explica que a alteração hormonal pode atingir cada mulher de maneira distinta. A menopausa não é considerada uma doença, mas pode provocar alterações sistêmicas que vão de aspectos psicológicos a vasculares. Para algumas mulheres, sintomas como ondas de calor, insônia, instabilidade emocional, choro fácil e depressão podem comprometer significativamente a qualidade de vida. Nesses casos, o tratamento pode ser indicado não para corrigir a menopausa, mas para controlar os sintomas e melhorar o bem-estar.

A decisão sobre o tratamento, segundo a médica, deve ser compartilhada com a paciente. A terapia hormonal é considerada pela Menopause Society o tratamento mais eficaz para sintomas vasomotores e para a síndrome geniturinária da menopausa, além de contribuir para a prevenção da perda óssea. No entanto, a recomendação é de que a escolha seja individualizada, levando em conta fatores como dose, via de administração, momento do início e histórico da paciente.

As diretrizes apontam uma chamada “janela de oportunidade” para a terapia hormonal. Para mulheres com menos de 60 anos ou que estejam a até 10 anos da menopausa, sem contraindicações, a relação entre riscos e benefícios tende a ser mais favorável. Depois desse período, aumentam as preocupações relacionadas a riscos como trombose, acidente vascular cerebral e, em alguns casos, câncer de mama, o que exige uma avaliação individualizada. No Brasil, a Febrasgo segue orientação semelhante em conjunto com a Sociedade Brasileira de Cardiologia.

A história de Simone Serrano, hoje com 63 anos, mostra que nem mesmo a presença de sintomas necessariamente resulta em reposição hormonal. Aos 56 anos, ela enfrentava alternância entre frio e calor durante a noite e procurou uma ginecologista. A médica avaliou que Simone ainda produzia hormônios em quantidade suficiente e considerou desnecessária a reposição naquele momento. Pouco depois, os sintomas desapareceram sem intervenção.

Simone também relaciona sua experiência à família. A mãe, hoje com 88 anos, passou pela menopausa sem grandes dificuldades e nunca fez reposição hormonal, enquanto a irmã, de 58 anos, também não utiliza o tratamento. A reportagem ressalta, porém, que essa percepção familiar não constitui comprovação científica de que a experiência seja necessariamente hereditária, embora a existência de padrões familiares seja registrada nas pesquisas sobre o tema.

Outra personagem ouvida é Kátia Najara, cozinheira e dona do perfil @zabesalvador. Há quase cinco anos na menopausa, ela considera os incômodos administráveis e não procurou tratamento específico. Kátia afirma que prefere evitar medicamentos, mas não descarta recorrer à reposição hormonal caso, no futuro, algum sintoma comprometa sua saúde. Para lidar com questões como queda de energia, ela mantém atividade física; para insônia pontual, recorre a chás.

A percepção de que a menopausa não apresenta necessariamente os mesmos sintomas em todas as culturas também aparece nos estudos da antropóloga médica canadense Margaret Lock, que comparou mulheres japonesas e norte-americanas. As japonesas relataram menos sintomas físicos e nem sempre organizavam essa experiência em torno de uma categoria equivalente à menopausa ocidental. O trabalho levou Lock a desenvolver o conceito de “biologias locais”, segundo o qual fatores como genética, dieta, contexto cultural e a maneira como uma sociedade interpreta uma experiência podem interagir com a forma como os sintomas são percebidos.

A dimensão psicológica também varia. Para a psicóloga clínica Anna Marchesini, não é possível estabelecer uma resposta emocional única para a menopausa. Algumas mulheres podem vivenciar a fase como um período de luto, outras como um momento de alívio e outras simplesmente como mais uma etapa da vida. O significado atribuído à menopausa, segundo ela, depende da história, dos valores, das escolhas e das relações de cada mulher.

A sexualidade também não segue um único padrão. Uma revisão de estudos qualitativos sobre mulheres de diferentes contextos culturais encontrou relatos de piora, ausência de mudanças e até melhora na vida sexual durante a menopausa. Entre os fatores que podem interferir estão dor, ressecamento e, em alguns casos, a ausência do medo de uma gravidez. Pesquisas do Instituto Kinsey também identificaram, entre algumas mulheres na perimenopausa ou pós-menopausa, manutenção ou melhora na qualidade dos orgasmos e na satisfação sexual.

A principal conclusão é que não existe uma experiência universal da menopausa. Para algumas mulheres, os sintomas são intensos e exigem tratamento; para outras, a transição ocorre com poucos impactos ou sem necessidade de intervenção. A terapia hormonal pode ser uma ferramenta importante quando indicada, mas não constitui uma obrigação. Como resume Maria Esther, a menopausa pode ser simplesmente “uma fase da vida e nada mais”.

Fonte: Correio.

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