Onde assistir: Amazon Prime (de grátis)
Disclaimer: Talvez tudo o que falei não tenha nada a ver com o filme.
Por Djanga Baiana (o D é mudo)
Estava zapeando pela TV e logo me foi sugerido esse filme: Eu vi o brilho da TV. O título era interessante, o trailer cativante e estava classificado como terror, o que já é suficiente para me convencer.
Bom, o filme não tem nada de terror. A sinopse é a seguinte: Maddy e Owen, os personagens principais, são fissurados por um programa de TV, The Pink Opaque. O programa (se eu entendi bem) trata da luta de duas garotas contra um monstro, o Sr. Melancolia (que é a própria Lua, tipo o Sol em Teletubbies), que tenta lowkey dominar a Terra, enviando monstros para capturar jovens. As garotas se conhecem e se encontram por meio de uma conexão no Mundo Psíquico e apenas elas sabem da existência do Melancolia e do que está, realmente, acontecendo. Elas acabam sendo capturadas, forçadas a tomar suco de melancolia (que no filme é suco de Lua, o Moon Juice), uma droga que deixa a pessoa dopada e sugestionável, têm seus corações arrancados e são, por fim, enterradas vivas (juro que não é terror).

Eu, que estava esperando o terror começar e geral começar a morrer, fui achando tudo muito enfadonho e sem nexo. Achei que era mais uma tentativa de filme arte-cult-lacrador, mas continuei assistindo só para ter certeza de que era bem ruim e recomendá-lo ao meu irmão, jurando que era ótimo, um divertimento meu.
Mas aí o negócio mudou. Você começa a perceber que a lentidão, o arraste da narrativa, a opacidade dos personagens (como no título do programa de que eles tanto gostam) fazem parte dos acontecimentos que se desdobrarão. Já vos digo que uma certa vergonha (não sei designar o sentimento, não achei o divertidamente correto. Constrangimento, talvez?) começa a surgir à medida que vamos nos reconhecendo nos personagens e no mundo em que vivem. Bom, a famosa ficha que cai.
Os personagens representam nossas jovens gerações (de nada, millennials, nos incluí nessa), que hoje vivem uma vida fabricada por algo maior que nos alimenta e é alimentado por nós. Nossos corações foram arrancados, nossos sentimentos esmagados e a cada dia somos lentamente enterrados vivos, uma pá de terra de cada vez, e o pior: sem perceber.
De forma natural, acordamos todos os dias disfarçando a solidão com a ilusão de pertencimento, escondendo o medo de ser diferente ou a obrigação de o ser, nos convencendo de que estamos bem, apesar de estarmos dormentes, vazios por dentro, acreditando que a vida se resume a isso, vivendo, mas sem sentir, no piloto automático.
Como em uma matrix, é quase impossível enxergar que fazemos parte dela. Poucos têm ou terão essa sensibilidade e muitos preferem nem sequer acordar para uma realidade que pode não ser tão bonita, tão linear, tão cotidiana, mas que é a realidade.

Queremos viver sem olhar para dentro, porque se conhecer é complexo, confuso, doloroso. Então, preferimos uma vida que não é nossa. Permanecemos enterrados vivos no Instagram, no TikTok e afins, sem reparar que estamos flutuando em um mundo de mentira, sendo alimentados por suco de melancolia (e proteína, porque somos saudáveis), nos fazendo pensar que há algo de errado conosco, como na música “Claw Machine” (maravilhosa), cantada no filme: “será que nasci triste, será que nasci cansado, será que nasci querendo mais? Pinto meu teto de preto para não perceber quando meus olhos estiverem abertos.”
Para quem postamos nosso texto, nossa foto, o print do Garmin, o treino devidamente pago, nossas férias, o jantar glamoroso, o chope alegre com os amigos? Para os outros ou para nós mesmos nos sentirmos melhores? Faz sentido apenas correr ou alguém tem que saber disso? Mostrar o que fazemos ou o que temos faz nossa personalidade evoluir? O que importa é quem somos, nossos conhecimentos, nossas vivências, nossa personalidade (e, mais importante ainda, nosso signo. Brincadeira. Mas é sério).
Isso mostra que o que importa é receber aquela notificação de que a postagem foi curtida, que alguém a comentou, e agora sabem que você escreveu mais um texto, que a corrida do dia foi finalizada com sucesso (como ontem e anteontem também), que somos profissionais de sucesso (o que isso significa?), uma ótima mãe, uma magra inalcançável, uma pessoa feliz. Alguém nos validou. Mas a foto postada continuaria sendo importante se fosse guardada para nossa própria e solitária apreciação?
O nosso cotidiano deve mesmo influenciar pessoas? O que compartilhamos é mesmo o nosso cotidiano? Respondo logo que não, não sejamos levianos. Com certeza, é um recorte apenas das partes bonitas e bacanas, em que se escolhe o ângulo do que mostrar para que o outro se sinta errado por não ter aquela vida. Uma vida que o “influenciador” também não tem (sim, nem o famoso, magro e rico), o que torna tudo muito sádico.
Cotidiano, por definição, é particular, eu tenho um e você tem outro. Mas a gente dá o like para recebê-lo de volta. E o ciclo continua se propagando pela eternidade. Achamos que somos a engrenagem, passando por cima dos nossos (pausa para um gag)“seguidores”, quando, na verdade, estamos todos sendo esmagados por ela.
Por que as pessoas o seguem? Você é o “Nelson Mandela” da garrafa Stanley? Você é o “Gabriel García Márquez” do crossfit? Você é a “Marie Curie” das bolsas? Se seus “seguidores” querem ser iguais a você, isso não o preocupa?
E se alguém alertar que o Melancolia está por trás disso, ninguém dará a mínima. Ninguém quer saber ou acreditar que ele é o dono da nossa vida, da nossa carteira, dos nossos sentimentos, do nosso corpo (cada estação tem uma CIRURGIA PLÁSTICA da moda), da nossa alma. Tudo a um like de distância. Um pequeno clique. Cada curtida é um gole de Moon Juice e uma pincelada de preto no nosso teto.
E mesmo que acreditemos ou nos importemos, acho que teríamos medo ou nem saberíamos como sair dessa simbiose que mantemos com os donos da narrativa (sempre há um dono da narrativa, e não somos nós, não se engane), como se esta fosse administrada não por canudinho, mas por soro, ininterruptamente, diretamente na veia. Não fumamos crack, mas gastamos tudo o que (não) temos em um carro, em uma bolsa, em um apartamento, na nova linha de maquiagem, convencidos de que isso nos tornará melhores, depois de passarmos 6, 8, 10h nas redes sociais, pois é lá que, de fato, vivemos.
Fingir alegria, vida plena, riqueza, beleza, sucesso (esse, então, é o maior golpe que existe) não é viver. Você não precisa de validação. Apenas pare, cave sua própria saída da cova em que está e descubra um mundo onde os monstros existem, onde você não tem o corpo perfeito, onde sua vida pode ser sem graça às vezes, onde seu filho o exaure e seu trabalho é chato. E é melhor viver nele do que no que escolheram para você, à sua revelia. Do contrário, um dia você fará tudo como deve ser feito, de acordo com o manual, e, mesmo assim, sua vida não fará sentido.
Você abrirá seu peito e, sem sangrar, notará que seu coração foi arrancado e, por dentro, você só enxergará o brilho da TV.
Om asatoma satgamaya. Tamasoma jyotir gamaya. Mrityorma amritamgamaya
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