Onde assistir: provavelmente em um streaming do qual você não tem assinatura.
por Djanga Baiana (o D é mudo).
Sabe quando você vai a um museu de arte moderna, olha para um quadro com um risco aleatório no meio e pensa: “Isso é arte? Eu faço essa ‘bestage’”. E, ao seu lado, está um coleguinha, com uma mão no queixo, óculos de grau de acetato preto, lenço no pescoço, com uma lágrima sutil, chique, escorrendo pelo olho esquerdo, emocionado com tamanha sensibilidade do artista? Esse quadro é “Morra, amor”.

O filme começa com um casal “hippie de Birkenstock” (flagrei a personagem principal, de fato, usando uma Birkenstock), muito intenso e frenético, numa casa caótica, herdada da família.
A personagem principal não parece feliz. Nunca. É melancolicamente descontrolada (o que pode até ser confundido, por um instante, com felicidade e animação). Torna-se perceptível que algo não faz muito sentido nela, nele, em ambos, na casa… uma bagunça que o espectador tem que estar medicado (ou não medicado?) para entender.
Aí você se certifica de que não vai ser legal. Vai ser daqueles filmes que querem lacrar e acabam parecendo um filme de conclusão do curso de cinema. Mas o filme é com Jennifer Lawrence e o vampiro Edward e talvez valha a pena dar uma chance. Qualquer coisa, fica sendo um daqueles filmes que a gente finge entender e acompanha as palmas, se houver, ao final. Me julguem, eu amo quando aplaudem no final, me sinto em Cannes. Então, persisti.
Particularmente, eu sempre termino de ver um filme quando o vejo no cinema. Para mim, essa é uma das belezas da experiência de assistir na grande tela: tem que terminar o filme que escolheu. Não dá para dormir, ficar zapeando eternamente, escolher outra coisa para ver ou fazer pesquisas sobre o que não entendeu. A experiência é nua e crua. Tá, tudo bem, dormir até que é possível. Tenho uma amiga que tira os melhores cochilos no cinema e sai dizendo que o filme foi massa. Eu também já dormi uma vez – confesso -, mas o filme era “Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência”. Você também dormiria.
Mas então, voltemos. Os minutos vão se passando e talvez você, como eu, pense que se trata da história de uma mulher muitíssimo entediada, que poderia resolver tudo montando um carrinho na Shein, que é o que fazemos quando não temos o que fazer. Mas é diferente, não tão simples assim. Não é só falta de uma encomenda para rastrear. Ela é confusa, ela confunde, ela cospe, ela rasteja (sim, ela faz isso tudo), ela quebra tudo, ela faz o que suas mil mentes mandam (personalidade ela só tem uma, mesmo) e, não, ela não está possuída.
Entretanto, o sentido de tudo, surpreendentemente, chega. Como uma epifania, você olha para o “quadro do museu” e começa a entender que o caos da narrativa traduz a cabeça turbulenta da protagonista. É a obra transmitindo a mente do artista, não necessariamente a nossa. O que parecia um roteiro caótico vira sofrimento, cansaço, pena.
Passamos a assistir a uma pessoa desesperada por sentir. Qualquer coisa. Dor, prazer, loucura, aflição, alucinação. Tudo é confuso, extremo, doloroso. Até o filho do casal é um instrumento na tentativa de sentir – e não falo de maternidade. Ela quer ser cultuada, quer atenção extrema e constante, quer prazer carnal e quer sentir quaisquer sensações, pois sofre da falta delas. Ela é capaz de tudo para ter paz e alívio e ser livre sendo ela mesma, o que se mostra incompatível. Sentir é uma prisão, não sentir, um manicômio.
Claramente, a personagem aqui sofre de um transtorno mental – que arrisco dizer ser o transtorno de personalidade borderline não tratado; li um livro uma vez e acho que sou especialista; não sou -, agravado pelo puerpério. Mas o filme não menciona um diagnóstico nem a estigmatiza, e se conforma em mostrar, para quem não sabe como é, a impulsividade, a violência, a carência, o barulho e a desordem que convivem na cabeça de quem sofre com o que ela sofre, seja lá o que for.
O filme não se limita a contar o que ela sente, ele nos faz sentir. O não entender, às vezes, é o ponto. Só entende quem passa. Ficar confuso pode ser a questão. É possível terminar o filme cansado com tanta freneticidade e pensar: “Se eu me sinto exausto, imagine como deve ser para ela”.
Ela alcança a calmaria queimando desnuda na própria história (como uma párea, uma bruxa?) e, pela primeira vez, em um cenário apocalíptico, é possível sentir serenidade em seu ser. A paz, para ela, não é a vida perfeita da casa organizada, limpa e arrumada, marido, filho, bolo feito à mão recém-saído do forno e uma mente sã. A paz, como tudo na vida dela, vem diferente, vem grandiosa, vem do fogo descontrolado, como ela. O fogo que apaga no diário de sua vida as linhas das crônicas de sua existência. Ela se destrói. E assim ela sente algo. Ela descansa.