Um trecho de menos de 100 metros na saída da Estação da Lapa, em Salvador, se transforma diariamente, principalmente no fim do expediente, em um ponto de encontro para trabalhadores, vendedores e passageiros. Com cerveja, churrasquinho, música, acarajé e muita conversa, o espaço ganhou entre os frequentadores o apelido de “CAPS do CLT”, em referência ao momento de descontração depois da jornada de trabalho. A reportagem foi publicada pelo Correio neste sábado (15).

O movimento começa a mudar por volta das 17h, quando trabalhadores da região deixam seus empregos. Isopores de cerveja e vendedores de churrasquinho ocupam o local, enquanto caixas de som dão o tom da confraternização. O trecho, que durante o dia é usado por pessoas que aguardam Uber, chegam ao Shopping Piedade ou procuram mototáxis, ganha outro perfil no fim da tarde. Na sexta-feira, o movimento é ainda maior, mas a concentração também ocorre em outros dias da semana.
A comerciante Rose Miranda considera o local uma espécie de terapia depois do trabalho. Moradora de Águas Claras, ela afirma que costuma parar na Lapa às sextas-feiras, mesmo que por apenas meia hora, antes de seguir para casa. Segundo ela, o espaço serve para conversar com as amigas, ouvir música e tomar uma cerveja.
Apesar de ter crescido nos últimos meses, a concentração de trabalhadores e boêmios não é recente. O comerciante Edson Matos, que trabalhou no antigo mercado da Lapa, quando ainda era o Paes Mendonça, conta que o movimento começou com um grupo de amigos que se reunia depois do expediente para jogar palitinho. Posteriormente, um deles colocou um isopor no local e o encontro, que inicialmente durava cerca de duas horas, passou a se estender até depois da meia-noite.
O espaço também virou cenário para histórias e novas amizades. Paulo Ribeiro, por exemplo, brinca que chama o local de “Point da Desculpa”. Segundo ele, nas sextas-feiras costuma dizer à namorada que o metrô está lotado e que vai esperar o movimento diminuir. A espera, porém, acaba acompanhada de algumas cervejas e conversas com outros frequentadores.
A movimentação chamou a atenção até de quem vem de fora. Walter Carioca, morador do Rio de Janeiro que estava em Salvador para resolver assuntos particulares, comparou a experiência com a Lapa carioca. Para ele, enquanto a Lapa do Rio tem uma característica mais noturna, a versão soteropolitana oferece uma espécie de festa de largo no pós-expediente, com acarajé, cerveja e pessoas reunidas para conversar.
O ponto também movimenta a economia informal. Taiane Santos, que estava desempregada, passou a vender churrasquinhos no local há quatro anos e trabalha de terça-feira a domingo. Segundo ela, o movimento beneficia não apenas os vendedores de comida e bebida, mas também motoristas de Uber e mototaxistas.
A história do local se mistura à própria trajetória da Estação da Lapa. Inaugurada em 7 de novembro de 1982, a estação recebeu oficialmente o nome de Estação Clériston Andrade e foi construída para reorganizar o transporte coletivo de Salvador, concentrando linhas e reduzindo a circulação de ônibus em áreas do Centro, como a Praça da Sé. O terminal tinha capacidade para receber até 200 ônibus simultaneamente e atender milhares de passageiros por hora. Na época, chegou a ser apresentado como o maior terminal de transportes urbanos da América do Sul.
Quando começou a funcionar, a Lapa tinha apenas cinco linhas de ônibus, embora a previsão fosse chegar a 52 ainda no primeiro ano. O terminal também contava com 11 escadas rolantes, uma novidade para a época que exigiu orientação dos funcionários da Prefeitura aos passageiros. Ao longo de 44 anos, a estação se consolidou como uma das principais referências do transporte e da vida cotidiana de Salvador.
Hoje, além da função de terminal, a Lapa abriga uma rotina informal que surge no fim do expediente. Sem programação oficial, organização formal ou sequer um nome reconhecido, o “CAPS do CLT” reúne trabalhadores e frequentadores em um pequeno espaço onde o trânsito para casa dá lugar à cerveja, à comida, à música e à conversa.
Fonte: Correio.