Onde Assistir: No limbo, pode estar em cartaz em sessões limitadas nos cinemas, mas logo chegará ao streaming.
Disclaimer: Gatilho de compulsão alimentar
Por Djanga Baiana (o “D” é mudo)
Vamos começar pela chamada do filme: “O que está te consumindo?”. Pausa para reflexão. Refletiu?
Passemos à sinopse: narra-se a história de Hana, uma jovem que, insatisfeita com seu corpo e lutando contra uma compulsão alimentar, está disposta a tudo para alcançar o peso desejado. O “disposta a tudo” envolve tomar pílulas suspeitas que permitem emagrecer sem ter de parar de comer. Ocorre que a pílula em questão vem com um fantasma acoplado.

O filme é muito bem-feito, artístico e, apesar de ser do gênero terror, não há sustos. O que assusta é sua pertinência e assombrosa atualidade. As imagens da comilança compulsiva são mostradas tão nuas e cruamente que ilustram, da melhor forma possível, o verdadeiro descontrole de quem sofre com o transtorno. Fazem você sentir repulsa, mas não vontade de comer todas as delícias que aparecem na tela. Mais um ótimo exemplar de qualidade cinematográfica do gênero que merece o devido destaque.
A tal pílula milagrosa, cuja bula falha em informar que vem com um fantasma de brinde, é apresentada a Hana por uma antiga colega de escola, ex-gorda (ex-plus size? Pré-Mounjaro? Não sei o termo atual, perdão), que agora está magra e jura que a coisa toda funciona. Hana, então, desesperada por não conseguir controlar sua compulsão e por falhar, vez após vez, em alcançar o físico desejado, acaba cedendo.

Como estudante de medicina e com acesso a tecnologias diversas, ela consegue desvendar que a substância é nada mais, nada menos que cinzas humanas. Ela passa por cima de qualquer questão ética (e nojenta) e usa restos de um cadáver (Bertha. Sim, tem nome), utilizado nas aulas de anatomia, para fabricar seu próprio “remédio milagroso”.
Logo nos primeiros dias, ela percebe a presença fantasmagórica de Bertha, mas o efeito no espelho a leva a ignorar esse pequeníssimo detalhe e seguir com o “tratamento”. E ela segue. E ela come. E ela emagrece. Alcança e vai além do peso da sua meta. Enquanto isso, Bertha-do-além fica cada vez mais faminta, e quem tem que comer por ela é a pobre Hana, o que torna a situação e a assombração cada vez mais insustentáveis.
Depois de passar por várias experiências terríveis do além, FINALMENTE, ela para de tomar a pílula e engravida. Brincadeira! Ela para de tomar a pílula, mas Bertha não vai embora. Não vou contar o restante do filme (meu irmão diz que eu, quando tento fazer uma sinopse, conto o filme inteiro. Culpada), mas vou tentar falar sobre a sua pertinência. Disse ela, continuando a falar do filme.
Hana, apesar de achar que o problema é sua aparência, no seu semblante, na sua timidez, na sua introspecção e na sua vergonha não estavam uns quilos a mais, e sim a falta de confiança em si mesma. Mesmo magra, continuou se achando insuficiente e desinteressante, em busca de uma validação que nunca viria. Ela acreditava que a mudança de corpo mudaria sua vida, mas só mudou seu reflexo no espelho e o número na balança.
Toda compulsão tem raízes profundas e a dela decorreu da dinâmica familiar. Ela cresceu com um pai obeso mórbido, um pária e um estorvo para a família, que acreditava que ele estava se entregando a uma morte evitável por não se esforçar o suficiente para ser saudável. A mãe, magríssima, maníaca por controle, típica japonesa, para quem não há lugar para erros, sempre a criticando. E essa foi a combinação que a levou a tentar fugir de suas raízes, o que acabou por enraizá-la cada vez mais em seus traumas, instalando-a no abismo da sua ilusória irrelevância.
“O enredo é constrangedor para o espectador que vive o momento atual.”
Hoje temos diversos remédios milagrosos, mas os tomamos sem saber, em primeiro lugar, por que os estamos tomando. É por você? É para os outros? Há diferença? Aqui falo de quem não precisa do medicamento. Não queremos recorrer ao velho e bom combo de exercício e dieta.
“Não queremos ser saudáveis. Queremos ser magros. Agora. Sem esforço.”
E por que achamos que ser magro nos trará mais confiança, seja lá o que for? Porque tudo ao nosso redor nos diz isso. Nossa família, nosso parceiro, nossos amigos, o outdoor, o TikTok, o Instagram, o cinema, os desfiles de moda, a numeração das roupas. Venderam-lhe a ideia de que ser magro trará sua confiança de volta em 10 dias. Repito, não falo daqueles que precisam emagrecer ou tomar o remédio por questões de saúde.
A mudança de corpo pode, sim, aumentar sua autoestima. Mas a questão é: o corpo almejado quase nunca é um corpo saudável e, quase sempre, é um corpo imaginário, platônico, que nada tem a ver com o biótipo com o qual nascemos.
Aceitar a si mesmo, hoje em dia, está se tornando impossível. Temos que ter uma forma inalcançável, alienígena. O lábio não pode ser fino, o nariz não pode ser grande, o perfil tem que ser simétrico, a linha do cabelo tem que ser reta, os dentes têm que ser branquíssimos e alinhados, mesmo que tudo isso seja alcançado de forma artificial, com cirurgias, inseguranças e procedimentos mil, apenas para se sentir padronizado, pois a diversidade não está mais na moda.
“E o grande problema é que ainda não se fabrica segurança interior. Esta tem que ser alcançada com esforço, ponderação, raciocínio e questionamento. E aí a conta não fecha.”
Ser magro era considerado convencional e o gordo, uma anomalia. Agora, o magro é a anomalia. A evolução da magreza é chegar a um extremo inacreditável. Se todo mundo pode ser magro, isso deixa de ser um objeto de desejo. O que passa a ser desejado é o extremo, a falta de limites, beirando o perigo e alcançando a total ignorância.
“A insaciabilidade não é por comida, é por magreza.“
Estamos compensando a sensação de não-pertencimento na vida com o pertencimento ao padrão de beleza. E é normal querer pertencer, afinal, o instinto nos diz que, sozinhos, dificilmente sobreviveríamos. Mas a nossa racionalidade existe para combater instintos que não cabem na vida contemporânea. Precisamos ser racionais. Podemos, mas temos que entender que não é compulsório fazer parte do grupo da proteína, da beleza a todo custo, do não envelhecimento (esse é risível). Não há vida dentro do padrão, mas há uma fora dele.
As pessoas estão sendo aplaudidas e aniquiladas por terem dentes tortos, por terem um corpo comum no puerpério, por terem ossos revestidos por uma camada saudável de gordura. O que está acontecendo? Está ficando assustador ou sempre foi? Bertha sempre esteve conosco? Você sente a presença dela atrás de você, assombrando-o? No mundo absurdo de hoje, em que o que importa é o que está por fora, nossos fantasmas só crescem. Pena que não podemos incensar esse encosto…
A velha história se repete: o que importa é sua inteligência, seja ela qual for, seus talentos, sua educação, sua confiança, sua personalidade… E se você não as cultivar da mesma forma que cultiva seu corpo, continuará sendo feio e repulsivo. Não vai atrair nada que realmente importe, apenas um grande vazio baseado na sua imagem e um fantasma de brinde.
A mudança externa nunca tornou uma pessoa ruim em uma boa. E o mundo, hoje, está cheio de pessoas magras, malhadas e “botocadas”, que são ruins, egoístas, julgadoras, ignorantes e intolerantes dentro da nossa casa. Sim, na sua casa. Bem em frente a você: na sua tela (ou espelho?).
E se nos sentimos insuficientes, incapazes e inferiores, que comecemos por dentro, mesmo aplicando a caneta emagrecedora. Pelo menos devemos refletir, entender e concordar com o porquê de querer ser magro.
Não caia na pseudofelicidade da magreza, cunhada em todo lugar, pois ser magro pelos motivos errados é como estar feliz nadando em um mar de lixo psicológico em que você mesmo se lançou, achando que estava saltando para a tão desejada validação.
“Pelo menos uma vez ao dia, tranque seu celular numa jaula, extirpe essa vontade de pertencer a uma manada idiotizada e passe a se importar com o que não pertence a ninguém: sua individualidade.”
“Você sabe o que consome, mas sabe o que está lhe consumindo? Para ser igual aos outros, quanto você está disposto a perder de si mesmo?“
Disclaimer 2: Tomo proteína, já usei Mounjaro e uso creme no rosto para evitar rugas. Pois é, a hipocrisia está até na crônica sobre um filme de terror. Imagine no seu TikTok… Nada é verdade, a não ser que você acredite que seja.