Onde Assistir: Cinemas (lotados)
Por Djanga Baiana (o “D” é mudo)
O que falar de um filme do Homem-Aranha? Em uma busca rápida no Google, sem confirmação nenhuma, encontrei que, dentre trilogias, animações e 37 mil filmes dos Avengers, temos 11, ONZE, eleven filmes de Homem-Aranha. Todos são legais, bons entretenimentos, e só quem reclama é quem lê os quadrinhos e os leva a sério demais, querendo cagar regra.
Esse novo Homem-Aranha é ótimo, como esperado. Elenco que conquista, enredo bacana, efeitos convincentes… O que mais me impressionou foi que a indústria do cinema nos empurrou Zendaya goela abaixo como uma diva bonita e agora eu consigo achá-la bonita. Isso foi, de fato, impressionante.
Entretanto, como eu não tenho nada a dizer sobre o filme em si, o que seria esperar muito da minha capacidade de espremer um limão para fazer uma limonada, prefiro falar sobre as interessantes mudanças pelas quais Peter Parker (que dispensa apresentações) está passando nessa fase de sua vida.

O nosso “amigo da vizinhança”, que sempre quis fazer parte de um grupo, se vê completamente fora dele. A base do enredo é que seus “sentidos-aranha” começam a dominar seu organismo de forma incontrolável, resultando em dores de cabeça fortes e constantes, hipersensibilidade a tudo, descontrole, cansaço extremo, dentre outros sintomas de ansied… de alterações aracnídeas.
O filme foca nas mudanças em seu DNA, interligadas aos seus sentimentos, à sua nova fase e à extrema solidão. Fica evidente que Parker está passando pelas “dores do crescimento” e pela solidão que as costumam acompanhar, pois, mesmo que tivesse alguém em sua vida, só caberia a ele enfrentá-las.
E o nosso herói, neste novo filme, não conta com nenhuma rede de apoio, a não ser suas próprias teias. Sua família de sangue (Tia May) e de coração (Tony Stark [caiu uma lágrima do seu olho. Eu vi!]) não está mais entre nós. Seus amigos e o amor da sua vida, por ocasião de um desejo altruístico seu, tiveram-no apagado magicamente de suas memórias. É certo que, no fundo, todo super-herói é solitário, pois para baixar a guarda e se entregar por completo, precisa confiar no outro de forma absoluta, e isso não é fácil nem para nós mortais, que dirá para aqueles que têm, por obrigação, que esconder sua identidade.
Tudo é acentuado por lhe faltar uma válvula de escape, pela vida solitária, reduzida a combater crimes, a ser apenas uma parte de si: o Homem-Aranha. O mundo inteiro só o conhece por uma máscara. E o que acontece com a pessoa por trás dela é que importa no filme e na vida.
Todos temos máscaras sociais que colocamos conforme a situação pede. Isso é normal. Entretanto, tem que haver um momento em que você se despe de todas elas para ser apenas você. Seja com um amigo, seu companheiro, seu cachorro, sua família ou você mesmo. Hoje em dia, vemos uma sala de espera do terapeuta lotada de pessoas que têm essa máscara colada ao rosto e não conseguem removê-la nem para se aceitar, se despir, se expor, mesmo que para si mesmas.
O Homem-Aranha, neste filme, passa por isso. Sua máscara não sai, nem quando a tira. Ele continua focado em ser o Homem-Aranha porque não sabe o que ser além disso. Peter Parker está enterrado, escondido, trancado em seu interior, afinal, sem sua parte humana, não há sofrimento. Mas ele está enganado e, infelizmente ou felizmente, não temos a capacidade de nos esconder de nós mesmos. Tudo virá à tona uma hora, em forma de enxurrada, de terremoto, de algo que você não pode conter.
Viver apenas de personagens é a epítome da solitude. E quem está habituado a viver assim não percebe o peso da máscara, só percebe a exaustão e as dores físicas e psíquicas decorrentes dela. Se esconder atrás de uma fachada torna-se uma zona de conforto, que nem sempre é um lugar bom e agradável, como o nome sugere. É o lugar a que se está habituado. Pode ser um limbo, pode ser um inferno, mas você não sai de lá por medo do desconhecido e o medo é o instinto mais intrínseco do ser humano.
Nosso instinto é lutar contra as mudanças: se sobrevivemos assim até aqui, por que mudar? Simplesmente porque a mudança é incontornável. Assim como as aranhas, que passam por fases de crescimento (vi no filme), nós também passamos por elas: a infância, a adolescência e a idade adulta. Entre elas, e várias outras, nos tornamos novas versões de nós mesmos.
E como Peter, que quer continuar agarrado ao que lhe é conhecido, fazendo de tudo para evitar que o DNA-aranha evolua, acreditamos que, para vencer nossos vilões (externos ou internos), precisamos, primeiro, alcançar a alquimia perfeita de nossas capacidades. Mas esse é o caminho para se permanecer estagnado. Os “vilões” irão aparecer, estando você pronto ou não. É justamente esse embate imprevisível com a vida que nos torna quem somos e quem seremos. Isso nada mais é do que crescimento.
Quem não muda se põe em um eterno casulo de onde não sai fortalecido nem amadurecido. E quando nos colocamos no casulo e temos medo de deixá-lo, viramos prisioneiros da nossa própria mente solitária. E uma mente presa torna-se inevitavelmente doente.
Toda dor, da perda, do crescimento, de se ver ou de ser visto sem disfarces, nos faz recolher-nos, porque sentir-se incompreendido é a maior solidão. A pior parte de qualquer sofrimento sempre será a solidão de sentir o que não se explica, o que não se pode compartilhar.
Tire sua máscara de vez em quando, entre e saia do casulo quantas vezes forem necessárias, faça suas trocas de pele e torne-se outra versão de si, e você verá que a sua essência permanecerá a mesma. Assim, nosso herói descobriu que poderia ser ambos: o que ele era, Peter Parker, e o que ele evoluiu para ser, o Super-Homem-Aranha, ambos em seu modo absoluto, sem conter nenhuma parte que o torne quem ele é. E o monstro que ele temia se tornar nunca foi um monstro, foi apenas o medo do desconhecido.
“A única coisa entre você e sua evolução é a sua própria hesitação.”
A única coisa entre você e sua evolução é a sua própria hesitação. Você não vai se perder por aceitar que não é mais o que foi no passado. Você se tornou e se tornará o que o seu caminho o levou a ser. E, nesse caminho, você não estará sozinho o tempo todo. Você pode até ser apenas uma gota, mas estará abraçada por um oceano. Ninguém faz nada sozinho. Não de forma mentalmente saudável. Nem o fantástico Homem-Aranha. Então seja o alguém de alguém.
Homem e Aranha. Seja os dois.
Frase bonita do dia: “As pessoas o amam não porque você é especial, mas porque você é você” (May, Tia).