Pela primeira vez em duas décadas, a Bolívia realiza uma eleição presidencial sem a presença da esquerda no segundo turno. O Movimento ao Socialismo (MAS), partido que governou o país por quase 20 anos, sofreu uma derrota histórica no primeiro turno e não figura entre os finalistas da corrida ao Palácio Quemado.

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No domingo (19), os bolivianos decidirão entre Rodrigo Paz Pereira, do Partido Democrata Cristão, e o ex-presidente Jorge “Tuto” Quiroga, da Aliança Livre — ambos representantes de uma centro-direita que se reconfigura num país marcado pela crise econômica e pelo desgaste político da era Evo Morales.
Fora da disputa
O MAS, fundado por Evo Morales e atualmente dividido entre o ex-presidente e seu sucessor, Luis Arce, obteve menos de 4% dos votos com o candidato Eduardo del Castillo, ministro do governo. O nome mais bem votado da esquerda, Andrónico Rodríguez, aliado rompido de Morales, somou apenas 8,15%.
A exclusão do MAS do segundo turno expõe o colapso de um dos mais longevos e influentes movimentos políticos da América do Sul neste século.
Polarização interna e esvaziamento político
A cisão entre Evo e Arce teve consequências fatais para a performance eleitoral da esquerda. Arce, impopular em meio à crise econômica, abriu mão da reeleição e lançou Castillo, que teve desempenho pífio. Morales, por sua vez, foi impedido de concorrer pela Justiça Eleitoral e pediu voto nulo como forma de protesto, rejeitando até mesmo apoiar o pupilo Andrónico.
“A divisão entre Evo e Arce foi como uma pá de terra no caixão do MAS”, resume o jornalista boliviano Fernando Molina.
Crise econômica e perda de protagonismo
A queda do MAS coincide com uma grave crise econômica. A Bolívia enfrenta escassez de dólares, inflação alta, filas por combustíveis e uma balança comercial deficitária — resultado da redução nas exportações de gás, principal fonte de receita nos anos de bonança.
As reservas cambiais do país caíram de US$ 15 bilhões, em 2015, para apenas US$ 1,9 bilhão no fim de 2024. O modelo baseado na estatização e redistribuição da renda do gás natural, marca dos governos do MAS, entrou em colapso diante da queda de produção e da perda de mercados como Brasil e Argentina.
“O MAS apostou tudo no gás, mas não preparou alternativas”, avalia a cientista política Moira Zuazo.
Disputa entre centro-direita e direita tradicional
No segundo turno, Rodrigo Paz Pereira lidera com 32,08% dos votos. Considerado um político centrista, ele enfrentará Jorge “Tuto” Quiroga, ex-presidente e figura da direita tradicional, que obteve 26,94%.
Ambos os candidatos evitam o radicalismo visto em vizinhos como Javier Milei, na Argentina, e Jair Bolsonaro, no Brasil, apesar de influência indireta de movimentos conservadores da região.
Santa Cruz de la Sierra, centro econômico e agroindustrial boliviano, apresenta forte simpatia por ideias bolsonaristas. Grupos ligados ao ex-governador Luis Camacho apoiaram candidaturas conservadoras e fizeram oposição aberta ao MAS.
O declínio de Evo Morales
Figura central da política boliviana desde 2005, Evo Morales viu sua popularidade ruir. Afastado do poder desde 2019, enfrentou acusações judiciais e perdeu força política até mesmo entre antigos aliados.
Embora tenha convocado seus apoiadores a votar nulo, sua influência ainda resiste em redutos como o Chapare, onde a presença do Estado é mínima. Morales acusa perseguição política e diz que a atual eleição é “ilegítima”.
Fim de uma era, mas não do legado
A queda do MAS representa o encerramento simbólico de um ciclo que marcou a guinada à esquerda da América do Sul nos anos 2000. No entanto, analistas apontam que o impacto social das reformas conduzidas por Morales — como a nova Constituição e políticas de inclusão — são irreversíveis.
“Não há como voltar atrás nos avanços sociais”, afirma Zuazo.
Para Fernando Molina, o futuro de Morales ainda depende da evolução da crise: “Se a situação econômica piorar, Evo pode ressurgir como canalizador do descontentamento popular”.
O que está em jogo
A eleição presidencial de 2025 não apenas redefine o mapa político da Bolívia, como encerra oficialmente o ciclo do MAS como força dominante. Em seu lugar, surge uma disputa entre duas direitas — uma moderada e outra ligada à velha guarda conservadora.
Ainda que sem nomes radicais na disputa final, o processo reflete tendências regionais e abre espaço para novos rearranjos políticos, em meio à incerteza econômica e à fragmentação partidária que marcam o país.
Com informações do G1.