Francisca da Silva de Souza, de 72 anos, moradora da periferia de Fortaleza, tornou-se involuntariamente personagem central em um dos maiores escândalos de fraude contra aposentados no Brasil. Analfabeta, viúva e pensionista do INSS, ela complementa sua renda como manicure — mas figura formalmente como presidente da Associação dos Aposentados e Pensionistas Nacional (Aapen), entidade suspeita de realizar descontos indevidos em benefícios previdenciários.

Foto: Arquivo
Segundo a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União, o esquema pode ter causado prejuízos de até R$ 6 bilhões a milhares de aposentados. A Aapen, que chegou a ter quase 492 mil associados, é uma das cerca de 30 entidades investigadas por realizar cobranças sem autorização dos beneficiários.
“Fraude dentro da fraude”
A Defensoria Pública do Ceará ajuizou uma ação na Justiça estadual pedindo que Francisca seja retirada dos registros da Aapen. O órgão afirma que ela foi enganada por um grupo de advogados que a fizeram assinar documentos sob o pretexto de obter um empréstimo. Sem saber, ela foi registrada como presidente da entidade e passou a receber centenas de cobranças judiciais — já são mais de 200 processos contra ela.
“Resta evidente que não se trata de presidente ou administradora de qualquer associação, mas sim de uma hipervulnerável enganada por pessoas inescrupulosas”, afirma a Defensoria.
Francisca anexou ao processo áudios e mensagens que trocou com os advogados envolvidos, nos quais expressa preocupação com as cobranças e teme que seu CPF seja cancelado. Um dos advogados, Ricardo Santiago, alegou que os áudios foram “tirados de contexto” e negou envolvimento com os fatos.
Investigação em curso
A advogada Cecilia Rodrigues da Mota, que já presidiu a Aapen e outra entidade suspeita (AAPB), também é investigada na Operação Sem Desconto. Segundo a PF, o escritório de Cecilia teria recebido valores das associações e repassado a empresas ligadas a familiares de servidores do INSS.
A CPI mista da Fraude do INSS foi instalada no Congresso nesta semana para apurar o escândalo. Atualmente, há 13 inquéritos em andamento em cinco estados e no Distrito Federal. A PF já apreendeu bens avaliados em R$ 176,7 milhões e bloqueou contas bancárias. Dois investigados estão presos preventivamente.
Com informações do G1.