O “morango do amor” — mistura de morango, leite condensado e açúcar — virou sensação nas últimas semanas, reacendendo um debate antigo: por que o brasileiro gosta tanto de açúcar?

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A resposta passa por séculos de história. A cana-de-açúcar, originária da Papua-Nova Guiné, chegou ao Brasil pelas mãos dos portugueses no século 16, após experiências bem-sucedidas na Ilha da Madeira. O produto logo se tornou a principal commodity da colônia, sustentada pelo trabalho escravo. Embora boa parte fosse exportada para a Europa, a abundância local influenciou sobremesas e compotas, substituindo o mel em receitas tradicionais.
Segundo a historiadora Vera Ferlini, o açúcar rapidamente integrou a culinária conventual herdada de Portugal, dando origem a doces como fios de ovos, pão de ló e pastéis recheados. Povos africanos e indígenas também moldaram esse gosto, preferindo o açúcar natural da cana, frutas nativas e mel.
No século 20, a indústria alimentícia acrescentou um novo capítulo: o leite condensado. Prático e versátil, caiu no gosto popular e hoje está presente em cerca de 60% das sobremesas nacionais. Pesquisa citada pela Nestlé aponta que 94% dos lares brasileiros consomem, em média, 6,5 kg do produto por ano. O brigadeiro, criado nos anos 1940, se tornou um ícone dessa tradição adocicada.
O excesso, porém, tem custos. O brasileiro consome em média 80 g de açúcar por dia — 50% acima do limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde. Esse hábito, reforçado por receitas que chegam a ter o dobro de açúcar de versões estrangeiras, coloca o país no topo do ranking mundial de ingestão, ao lado de Estados Unidos e México.
Especialistas alertam que a ingestão elevada está ligada ao aumento de obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares. Para a nutricionista Daniela Canella, o caminho é a moderação: reduzir gradualmente o açúcar adicionado e valorizar o sabor natural dos alimentos.
Entre o açúcar das senzalas e engenhos e o leite condensado dos supermercados, o doce se tornou parte da identidade nacional — visitando, agradecendo e celebrando, como escreveu Gilberto Freyre. O desafio agora é manter o sabor, mas sem adoçar demais a conta para a saúde.
Com informações do G1.