Filme: Nuremberg

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Por Djanga Baiana (o D é mudo)

Filme excelente! O que chamaríamos de “filme de Oscar”. Mas talvez esse seja seu único, diminuto, insignificante defeito (só para citarmos um): ele é milimétricamente escrito, atuado e filmado para concorrer ao Oscar. Ficou um pouco estilo novela, engessado… Veja, só estou achando defeitos por diversão. O filme é maravilhoso!

Só por termos Russell Crowe falando alemão e fazendo apoio com uma barriga imensa, dá o Oscar para ele! Temos Rami Malek com a mesma cara de sempre: a de Rami Malek, e sua cara e seus olhos esbugalhados poderiam merecer o Oscar também. Não acho que mereça, mas se faltar gente melhor, tome-lhe.

O filme é um prato cheio para quem gosta de assuntos relacionados à Segunda Guerra, em especial para psiquiatras, psicólogos e entusiastas de uma destas ciências, pois traz esse direcionamento, pouco tratado nos filmes do gênero, ao mostrar detalhes dos bastidores do julgamento de Nuremberg. O julgamento aconteceu por ocasião da criação da primeira Corte Internacional com jurisdição para julgar prisioneiros de guerra do alto escalão nazista, como Hermann Göring, interpretado pelo nosso Crowe (acho que falei certo. Vai pesquisar).

Malek interpreta opsiquiatra Douglas Kelly, naquele estilo: selecionado e captado do nada pelo governo, como acontece em todos os filmes em que esses profissionais especialistas vivem uma vida comum, mas são os melhores do mundo e o governo aparece com 5 helicópteros para buscá-lo e salvar geral.

A missão dele como psiquiatra é conhecer e dar suporte emocional aos prisioneiros nazistas para mantê-los vivos (evitando que se autoexecutem) e resistirem até o final do julgamento, pagando, assim, pelos crimes de guerra que cometeram.

O que vemos, então, é o nascimento de uma relação além da de médico-paciente entre Kelly e Göring. Eles viram amantes. Não! Brincadeira! Brincadeira! Eles se veem em uma relação de admiração e amizade (ou algo minimamente próximo disso). Não pode ser uma amizade comum (será que eu poderia dizer uma amizade platônica?). Primeiro: o profissional não está ali para fazer amizade com os prisioneiros e, segundo, há, inevitavelmente, desconfiança entre as duas partes, que, ao tempo que os aproxima, não os deixa esquecer de que jogam para times diferentes. Me lembra Romeu e Julieta hihihihih.

A linha que os separa entre lados e interesses diferentes ora se enfraquece, mas não se rompe. E nunca se romperia. Eles não sabem onde cada um se coloca na complexa construção de relacionamentos interpessoais (apesar de tentarem descobrir), surpreendentemente, independentemente de quem Göring serviu e de quem Kelly serve, mesmo assim, para eles, as coisas não ficam claras. Parece um jogo de pôquer eterno no qual as cartas escondem as reais emoções. A verdade é que o contato mantido entre eles é entre imagens fabricadas, entre personagens de si mesmos (no maior estilo “eu sei que você sabe que eu sei que sabe”).

É interessantíssimo observar por esse ângulo o funcionamento de uma guerra, que depende da entrega e da absoluta crença de um exército de seres, antes humanos e racionais, para outros seres que não são melhores nem superiores, mas são bons convencedores e esmagadores de opiniões e livres-arbítrios. O que torna tudo muito esquisito e absurdamente normal.

Para Göring, os seus atos de guerra nada mais foram do que o exercício de um papel, uma função que lhe cabia, um bater de carimbo, e nada sabia sobre as atrocidades sem fim que marcaram o confronto (isso vindo do sucessor imediato de Hitler).

Mais ou menos como acontece com os governos atuais, nos quais um assina um papel e trezentos se ferram lá na frente. A borboleta bate as asas aqui, onde ninguém sente e, do outro lado do mundo, o furacão acontece. E a culpa se dissipa. E a gente tenta acompanhar, diria, pela TV, mas hoje é pelas redes sociais, por vídeos curtos, criados, adulterados e mal compartilhados, e assim os exércitos se formam.

Lembre-se, quando for defender uma ideia, sem estudar nem respeitar a outra, de que os prisioneiros de Nuremberg permaneceram até o fim fiéis a uma ideia que já havia morrido e já havia matado.

Creio que, apesar do que dizem os otimistas (eles existem!), a próxima terceira grande guerra ocorrerá. Eu digo isso porque o ego do homem é maior (bem maior) que sua inteligência. Só sobrará o pó. E aí o mundo estará em paz.

Como Djanga Sensitiva, digo que o filme estará entre as premiações. 

E aí, você seria amig@ de Hermann Göring?

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