Onde assistir: Cinema
Dica: Assistir em salas IMAX.
Difícil. Muito difícil falar do filme que dividiu 2026 em pré-Odisseia e pós-Odisseia. Lembro-me de que li uma versão infantil de A Odisseia na quarta série e garanto que nenhum filme poderá mostrar (mesmo em IMAX e o diabo a quatro) de forma tão legal, rica e divertida, o que a imaginação cria e para onde nos leva quando lemos esta história. Fiquei ansiosa esperando ver o Ciclope, as Sereias, a ira de Poseidon, o Cavalo de Tróia, mas a memória de criança deixou tudo aquém do que eu esperava, o que não é culpa de Christopher Nolan. É a velha máxima de “o livro é melhor que o filme” (sempre).

Todo mundo no filme é famoso, inclusive os figurantes, o que achei “agressivo”, um pouco presunçoso. Escalar a Hollywood inteira quando precisávamos apenas de 3 grandes nomes (ou nenhum grande nome) foi um tico demais. Abaixo, está uma lista com notas para a escalação, sem nenhum padrão lógico:
- Matt Damon (O Odisseu): Nota 7 de 10. Não acho que tenha sido a melhor escolha. Outros 30 fariam o que ele fez. Inclusive Wagner Moura. As lentes de contato nos dentes (podem ser os dentes dele mesmo, mas vou apostar em lentes de contato) me incomodaram e o visual careca cabeludo também. Para mim, o Odisseu tem cabeleira vasta.
- Himesh Patel (Euríloco): 10/10. Perfeito. Conseguiu até se transformar em um porco. Impressionante.
- Anne Hathaway (Penélope): 10/10. Bonita, falou o que tinha que falar, fabricou lágrimas…
- Tom Holland (Telêmaco): 9/10. A gente gosta dele, fazer o que?
- Zendaya (Athena): numa escala de 1 a Nicolas Cage, ela ganha o troféu Nicolas Cage. Entra muda e sai calada, mas faz o papel dela.
- Elliot Page (Sinon): Protect the dolls, the trans, the yags, the queer. Arrasou por sua atuação de 5 minutos e por estar em seu primeiro papel em um filme desta magnitude, após sua transição. Hollywood e o mundo precisam respeitar.
- Robert Pattinson (Antinous): O melhor. Aparentemente ele sabe atuar. Deve ter sido instruído a não o fazer quando interpretou Edward.
- John Leguizamo (Eumeu): 10/10. Sem críticas. Mas ele será o eterno “O Peste” para mim.
- Charlize Theron (Calypso): 2/10. Não atuou, só foi bonita. Então, nesse quesito, pensando bem, 10/10.
- Lupita Nyong’o (Helene): Não posso dar 10 só pelo fato de ser uma Helena preta. Seria subestimar seu talento. 5/10, pois não fez nada de especial no filme, em que pese ter causado a guerra. Como interpretou gêmeas, o máximo da atuação para a classe de atores e atrizes, 6/10 (lembrando que a distribuição de notas não possui padrão lógico ou padrão nenhum).
- Cachorro Caroço de Manga: 10/10. Sua morte foi muito bem atuada.
- Cillian Murphy – 10/10, apesar de não estar no filme.
- Pedro Pascal – Podia estar, mas não estava.
Não tem como citar todos os famosos e semifamosos porque são muitos. Estão todos ok. Veja, não é culpa dos atores, é porque, se for dividir 3h de filme por 300 atores, só dá 5 minutos de tela para cada um (não sei fazer matemática).
Se for para falarmos do filme, é ÓBVIO que é bem-feito, bem dirigido, bem atuado, bem filmado e bem editado (sou cada dia mais fã do trabalho de edição), mas o melhor são os diálogos, maravilhosos e reflexivos, porém, não sei o quanto disso deriva do livro. Para quem nunca leu o livro (eu, a não ser que você conte a versão infantil que li na quarta série), o filme passa a ser um clarão de autoconhecimento para o espectador ao acompanhar a própria jornada de autoconhecimento do Odisseu.
Em sua longa travessia de volta para casa, já dá para filosofar bastante ao pensar no nosso inevitável eterno retorno (não aquele de Nietzsche) ao seio do nosso âmago, à nossa semente, ao átomo que iniciou nossa existência (talvez tenha voltado um pouco demais). Ulisses não quer se resignar a uma vida ditada por ordens divinas, pois não aceita renunciar ao seu livre-arbítrio e à possibilidade de escrever o próprio destino. E nada disso o torna livre de estar à mercê do que é maior, do Universo, por ser ele apenas um homem.
Ele luta, ao mesmo tempo, com o divino e com a sua humanidade. É uma luta da qual não se sai vencedor, pois faz parte de quem somos: sem o humano, o divino não existe e, sem o divino (chame do que quiser), o humano não existe. Afinal, ninguém é maior do que sua própria existência. (“Não acho que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem quem perder, vai ganhar ou perder. Vai todo mundo perder.” Rousseff, Dilma)
Os longos sete anos em que passa entorpecido na ilha com Calypso, fora do mundo real, são o tempo em que Ulisses se digladia entre um passado traumático e um futuro que entende não merecer, mas que quer mais do que tudo. Apesar de saber da selvageria da qual participou e da desumanidade que presenciou, o desejo de retornar ao que ama e de passar por cima de qualquer punição que ache que mereça (como solidão, isolamento e até a morte) faz com que queira existir, queira tentar, queira voltar à superfície e viver mais do que em um sonho anestesiado.
E assim se agarra ao passado, assumindo-o sem desatá-lo da sua culpa, e se entrega ao desconhecido, ao destino, aos deuses, às marés, às ondas, aos ventos e chega aonde deve estar, dentro de si, em casa. Chega sem carregar os louros da vitória que murcharam anos atrás e caíram de sua cabeça heroica.
O ponto alto do filme, quando comecei a perceber que a obra vai além de um grandiosíssimo blockbuster, é a narração do Odisseu sobre o canto das sereias. Fiquei, eu mesma, enfeitiçada. Não se veem de perto os seres míticos, mas, em uma cena muito bem executada, vemos um Ulisses, amarrado ao mastro do seu único e sobrevivente navio, urrando de sofrimento enquanto sua voz narra o que ouve e o que sente.
Não ouvimos o canto, mas nada seria tão profundo quanto ouvi-lo narrado pelo próprio Odisseu. Foi uma das coisas mais paradoxais e, ao mesmo tempo, reais e racionais que já ouvi, mas, novamente, é uma derivação da genialidade de Homero. Não saberia colocar aqui, em palavras, pois, apesar de eu ser uma sereia e cantar muito bem, é melhor que assistam à cena.
O famoso “canto da sereia” atrai com promessas enquanto engana. Elas cantam que sabem tudo sobre sua existência. Tudo. Até aquilo que você mesmo não sabe, não entende sobre si, o que viveu, o que ainda não viveu, aquilo que acha que quer e o que verdadeiramente quer. E isso passa pelos seus olhos antes de você ter sabedoria suficiente para entender tamanha revelação. Imagino que deva ser como acordar velho, sem ter tido a vivência e os aprendizados de uma vida inteira, ou como a vergonha de enxergar o que verdadeiramente se deseja, o que é feio, cruel, covarde, egoísta, aquilo que tentamos enterrar nas profundezas do nosso íntimo, confirmando que esse desejo existe dentro de nós, faz parte de quem somos e é mais forte do que o que deixamos emergir.
Depois, oferecem a paz que acompanha a oferta de conquistar os seus desejos. Por isso, é um canto, é passageiro, bastando passar por elas sem ouvir para que sua vida siga como dantes. Porque nós mudamos, os desejos mudam. Nosso futuro não está escrito. E se está, por que aceitar trocar sua vida por algo que inevitavelmente virá no seu tempo? Na existência, a única promessa é que não há promessas.
Querendo ou não, os bastidores são mais importantes do que a peça e, a cada personagem que entra ou sai, tudo muda novamente. O problema é esperarmos aplausos ao final de cada ato ou fazermos uma reverência, quando aclamados, sabendo que não merecemos. Como o nosso Odisseu acabou entendendo, não adianta lutar contra o destino. Cada ato, bom ou ruim, altruístico ou cruel, nos torna quem somos. Afinal, ninguém manda no que é.
Considerações finais: Muita gente famosa, muita gente emocionada falando sobre a genialidade do filme, muitas câmeras IMAX, muitas locações onde nada nunca foi filmado antes, cabelo rareando em Matt Damon, esperava algo que pudesse ser melhor do que A Lista de Schindler, Jurassic Park, Oppenheimer, Interestelar, Kill Bill, Os Goonies.
Obs.: Todos, em especial as atrizes, que sofrem mais com esse tipo de escrutínio, estavam com suas cutis reveladas (em IMAX) maravilhosamente naturais e perfeitas. Lindas, rugas lindas, viço lindo. Obrigada por esse detalhe de fidedignidade, tanto para a época quanto para os dias atuais!