Filme: A Morte do Demônio, Em Chamas

Onde assistir: Cinema (por pouco tempo)

Disclaimer: Gatilho de violência doméstica e de violência contra animais.

Por Djanga Baiana (o D é mudo).

Bom, quem conhece a franquia Evil Dead e o nome Sam Raimi não se surpreenderá com as cenas gráficas, grotescas, nojentas e totalmente gore deste novo filme da franquia. Não sei de que cabeça saiu tanta nojentice, mas fico preocupada (continue assim).

Só para garantir, o filme é de terror (brabo). Até porque o nome é A Morte do DEMÔNIO, não A Morte do Amor (que seria triste de qualquer forma). Quem não aprecia não deve assistir. Pronto, avisei.

Assim como os filmes de terror que vêm sendo lançados nos últimos anos, este é muito bem-feito (não foquemos na lógica, não é isso que interessa). O filme, com cenas MARAVILHOSAMENTE bem pensadas e executadas, não perde em qualidade para nenhum filme-não-terror em qualquer quesito. Foi-se o tempo em que o filme de terror significava inferioridade cinematográfica (como diria Anitta: rexxxpeita!). Que orgulho dessa fase do terror!

Além da qualidade da produção, a parte demoníaca faz jus ao legado de Evil Dead. Mas o que surpreende neste novo filme é a temática que inclui relacionamentos abusivos e a configuração familiar do abusador. Eu sei que, hoje em dia, todo filme quer lacrar com temas que estão sendo abordados e discutidos pela sociedade, mas aqui não se passa do ponto e fica bem sincronizado com o foco central: sustos e coisas nojentas. Até a dinâmica da família do abusador traz suspense por si só, o que achei genial: proporcionar momentos de suspense, para além da parte sobrenatural demoníaca.  

A personagem principal, Alice, casada com Willian, sofre abusos físicos e psicológicos do marido, disfarçados de cuidado e amor (controle e cuidado se confundem muitas vezes), o que prepara o terreno para algo que vai dar muito errado.

O patriarca da família de Will é o machão que quer criar filhos durões, iguais a ele, e a mãe, superprotetora, os trata como troféus, como uma escultura majestosa, orgulhosamente feita por ela, frágil, que precisa de extremo cuidado ao ser manuseada. É a receita explosiva para filhos que não saberão lidar com a complexidade da vida, com relações saudáveis e com os “nãos” que inevitavelmente aparecerão pela frente. Essa receita deu origem a dois irmãos, um agressivo e o outro passivo, resultados comuns desse tipo de criação. Ambos inseguros, mais apropriadamente designados como covardes.

A todo momento, Alice é criticada por não se vestir como se espera, por se aproximar demais de outro homem, por oferecer um cigarro, por não ser mãe, por querer viver a vida como escolheu, e não a que lhe está sendo forçada goela abaixo. O irmão de Will e sua respectiva esposa observam todo o abuso de perto, mas se mantêm distantes o suficiente, tanto pela passividade do irmão medroso quanto pela famosa máxima: “em briga de marido e mulher, não se mete a colher”, já ultrapassada e comprovadamente equivocada, pois a colher deve ser metida, sim.

Por ocasião do desti… demônio, Will morre e sua alma vai para o inferno (como esperado, caso contrário, não teríamos filme). E assim, ele vai “contaminando” sua família com sua demonicidade (às vezes temos que criar palavras), um por um, para dar tempo de cenas horríveis acontecerem (você acha beijo de língua romântico? Pense de novo), restando apenas a sua viúva.

Esta, depois de se arrebentar dos pés à cabeça (e ouvido), passa do “ponto de desistência” (quando eu teria desistido há muuuito tempo) e consegue achar uma adaga sobrenatural que mata demônios (inclusive, acho que todos nós deveríamos ter uma dessas em casa, só por precaução, nunca se sabe…). E, assim, mata a família inteira do falecido marido (impresssive).

Mas Will, o demônio-mór em sua fase-chefão, permanece dedicado a atazanar a esposa, como é característico de todo (achou que eu ia falar demônio?) abusador, pois sem ele, ela não é nada. Sem ele, ela é apenas ela e isso não basta.

A verdade é que sem ela, ELE não é nada. O covarde enrustido, travestido de machão, não é ninguém sem a vítima do seu bullying, da sua humilhação, e não consegue manter sua máscara de coragem e superioridade senão por meio de abusos e violência. Ele precisa diminuir sua vítima para se sentir validado. E como seu executor, ele poderá ser dono até do seu destino e, assim, ela lhe pertencerá para sempre, privada da possibilidade de uma vida sem ele. Um prazer mórbido.

Estamos diante de uma ficção de terror que entretém e diverte, mas o susto de verdade começa quando o filme acaba. É a realidade em que a mulher não descansa, vivendo todos os dias em resistência ao machismo e ao patriarcado tóxico, que, cada vez que cai, cai atirando, levando consigo a vida de mulheres, cujas vozes só poderão ser conhecidas e difundidas por familiares e amigos, aqueles que ficaram. E as que sobrevivem, apesar de absurdamente devastadas e devassadas por uma violência COM precedentes, devem considerar sorte poder, elas mesmas (as que têm condições para isso), mostrar quem são e narrar o que passaram. Um verdadeiro filme de terror, que não acaba com o passar dos créditos.

O homem (generalizando, aqui) ainda é inseguro a ponto de não aceitar que uma mulher seja totalmente livre, sem amarras, sem mordaças e, por que não, sem um homem. E essa insegurança masculina também é herança do patriarcado. Esse medo de não ser homem suficiente aos olhos dos pais e da sociedade, a obrigação de ser forte, provedor, de não chorar, ao mesmo tempo em que é criado como um bibelô pelas mães. Uma dicotomia que confunde qualquer um e vira uma granada a uma puxada de pino de explodir. Não são todos os homens que vão virar abusadores-assassinos. A maioria, inclusive, não o será. Mas a outra parcela é suficiente para causar estragos imensuráveis.

Enquanto isso, a mulher é criada para ser mulher. Quando eu digo isso, você entende, não é? Não precisa elaborar. Essa é a diferença entre os efeitos do patriarcado e do machismo sobre homens e mulheres. Todos sofrem, mas apenas um gênero morre a cada dia pelo simples fato de ser quem é. Somente um gênero tem uma taxa de violência e mortalidade estatística, noticiada diuturnamente. Só um gênero precisou que seu assassinato fosse configurado como crime autônomo no Código Penal e da edição de uma lei dedicada à violência sofrida exclusivamente por pertencer a esse gênero. O feminino.

Os demônios são de carne e osso e estão entre nós (na balada, no trabalho, dentro de casa, na porta vizinha…) e deixam sua marca, cravada na pele das mulheres, para que estas não se esqueçam de que eles existem (infelizmente, toda mulher tem uma dessas). Às mulheres, resta resistir, correndo todos os riscos, inclusive o de viver no inferno com o demônio.

Permita que sua filha queira fazer futebol em vez de ballet, permita que seu filho seja delicado, permita que sejam o que desejam ser, dentro dos limites da ética e das leis. A repressão não é o caminho para moldar ninguém aos seus próprios padrões reprimidos. É o caminho para traumas, que, se não tratados, podem, sim, virar violência. “Ah, Djan, mas isso não tem nada a ver com demônios e abusadores”. Tem, sim.

Enfim, melhor filme da franquia.

FONTES / CRÉDITOS:

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Receba nossas notícias diretamente em seu email.

Inscrição realizada com sucesso Ops! Não foi possível realizar sua inscrição. Verifique sua conexão e tente novamente.

Anuncie aqui

Fale conosco