Filme: Juntos


Onde assistir: Amazon Prime (de grátis)


Por Djanga Baiana (o “D” é mudo).

Já assistiu a “Juntos”? Recomendo (quem me conhece costuma evitar os filmes que recomendo, principalmente meu irmão).


Foi o meu filme preferido de 2025. Veja que não estou dizendo que foi o melhor filme do ano em questão. Mas é aquele tipo de filme diferente, que parece obra de alguém que acordou de um sonho doido e resolveu escrever um roteiro. O filme apresenta, de forma muito peculiar, digamos assim, a dinâmica de um jovem casal. Tenta mostrar (para mim, de forma bem-sucedida) o que permanece e o que muda quando duas pessoas se unem como um casal. Somos metades que se encontram no outro? Somos dois seres distintos? Somos um? Esse é “Juntos”.

O casal de protagonistas se muda para o interior para, em meio a novos ares, ajustar um relacionamento que caiu no descompasso. Eles decidem, então, explorar o local bucólico, perdendo-se em meio à floresta. Começa a chover torrencialmente e acabam caindo em um buraco que abriga uma caverna esquisita, com inscrições nas paredes, sinos ritualísticos, sons e efeitos estranhos. Ou seja, sinais do mal começam a aparecer logo cedo, mas, como de costume, tudo é ignorado, do contrário (como sabemos), não haveria filme.

Começa a sequência de erros. Eles poderiam sair da caverna sinistra (sim, era factível e fácil, bastava ser iniciante no crossfit) ou permanecer, esperando a chuva passar, mesmo com toda a sensação de que “algo de errado não está certo”. Sem surpresa alguma, escolheram ficar.

Eles começam a ficar com sede e há algumas opções: beber um vinho que tinham na mochila, abrir a boca para cima no buraco em que caíram e beber água da chuva, ou tomar uma água duvidosa, EMPOÇADA, da caverna possuída. Beberam o vinho, claro. Todos nós acertamos. Mas e depois?

Como se hidratar é importante para o bom funcionamento do organismo, resolveram que a segunda melhor opção seria partir para a água parada, berçário do mosquito da dengue (quem já foi para Chapada Diamantina sabe que isso é um não-não). É nesses momentos que sei que vou gostar de um filme. Quando o protagonista faz a “merda totalmente evitável”. Aquele ponto em que todo mundo pensa “se fosse eu, sairia ileso”, mas demos os descontos devidos, pois são americanos branquinhos com franjinhas e mullets.

A chuva passa e eles saem FACILMENTE da caverna, voltam para casa e fica tudo no “até aí, tudo bem”. Porém, após beberem da água suja, começam a agir de forma estranha (hum, mistério). Os corpos passam a agir como ímãs humanos. Sentem uma “sede” insaciável pelo outro e seus corpos fazem de tudo para se tornarem um só, à revelia da vontade das próprias mentes. Sim, um só. Juntos (há!).

De forma totalmente coerente, o efeito “megazord” (Gen Z e posteriores, pesquisem) dá uma trégua quando tomam uma espécie de benzodiazepínico (se você não sabe que diabo é isso, parabéns, você venceu na vida). Mas a magia do mal volta a atazanar quando o efeito do medicamento vai passando (deve constar na bula, por isso, devemos sempre lê-la).

Daí para frente, só para baixo. Um grudado no outro, aquilo grudado naquilo outro (ponto altíssimo do filme), braço mesclado com braço, faca elétrica para cá, corpo se contorcendo para lá, uma desgraceira sem fim. E eles resistem com todas as forças, fazendo o que podem. Podiam pouco.

Mas o que está realmente sendo explorado aqui não é o fato de terem de se tornar uma única pessoa por meio de uma mesclagem extremamente dolorosa e bizarra de corpos: é a burrice de tomar água suja. Não. Brinco. É a vida a dois.

O que ocorre com o casal que estamos acompanhando é uma espécie de luta contra o peso da realidade na relação, na qual tudo o que antes era excitante e prazeroso passa a ser comum e sem graça com o tempo. Como se os votos de amor, uma hora, sucumbissem à rotina e aceitar o outro como metade implicasse em não ser inteiro.

E, em Juntos, vemos esses questionamentos: precisamos perder parte da nossa essência para vivermos a dois? Existe um ponto em que a individualidade deve necessariamente morrer? O amor, por si só, é o suficiente para manter um relacionamento? Ou o amor é totalmente dispensável? Relação a dois implica codependência? Independência? Algo no meio?

Falar que o ideal é um meio-termo é fácil, achá-lo é mais complicado. Mas o filme encontrou, de forma estranha, esse ponto. Nem eu, nem você: nós. Mas o “nós” funciona apenas para quem deseja sê-lo. É necessário se conhecer. Saber o que sente, o que quer e o que não quer. Só se deve colocar o pé em uma relação quem tem as respostas, não as perguntas.

E para o casal protagonista, toda a hesitação, o ressentimento e as dúvidas devem ser decididos com urgência pela união completa (e literal) ou pela morte de um deles. Decisão difícil: morrer como “eu” ou viver como “nós”, mesclando-se com o outro “eu”, e o “nós” será um novo “eu”. Ficou claro? Não?

Eles decidem e se entregam. E foi lindo! Os dois corpos mesclaram-se de forma grotesca, com muito amor e horror, ao som de Two become one, Spice Girls. Isso mesmo. Quer trash melhor do que isso? Enfim, juntos. Franjinha de um, mullet do outro.

Não beba água empoçada.

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