Onde assistir: HBO Max
Por Djanga Baiana (o “D” é mudo).
O filme O Drama, com Zendaya e Edward, o vampiro, conhecido também como Robert Pattinson (aparentemente os únicos atores disponíveis em Hollywood em 2026), trata de um casal, Emma e Charlie, que se vê diante de um impasse às vésperas de confirmar sua união pelo laço matrimonial. O impasse: a noiva, quando jovem, planejou um tiroteio na escola onde estudava.

O drama começa com sua confissão, quando tudo desanda. Amizades terminam, desconfianças nascem, medos aparecem e arrependimentos também. Como lidar e conviver com uma informação como esta? O filme consegue, de forma razoável e aceitável (estou em dúvida se vai além disso), aprofundar-se na (des)confiança e no moralismo nas relações sociais. Então faremos exatamente isso.
Com base na nossa própria consciência, sabemos que todos nós temos segredos. Quando escolhemos nos relacionar com alguém, acabamos fingindo, diria até mentindo para nós mesmos, ainda que de forma inconsciente, que aquela pessoa é exatamente o que enxergamos e conhecemos, como se não houvesse nenhuma parte desconhecida ou obscura dentro daquele ser. Mas essa não é a realidade e o filme extrapola a ideia de até que ponto conhecemos uma pessoa e de até que ponto um segredo é aceitável e, para além disso, superável.
Se você fosse se casar com alguém em duas semanas e descobrisse que sua cara-metade planejou um massacre, mesmo que não o tivesse levado adiante, isso mudaria sua percepção sobre ela? Tudo o que viveram antes da informação emergir estaria perdido? Se você está com essa pessoa há alguns anos e escolheu se casar (uma promessa de eternidade), é porque confia e se sente seguro ao seu lado, entendendo que qualidades não só existem, mas são o bastante. Não é?
Acredito que a questão filosófica aqui não é descobrir que o outro é um assassino, pois o crime não se efetivou. É descobrir que a pessoa tem em si a capacidade de pensar e planejar algo tão vil. Dentro da nossa cabeça podemos tudo: trair, xingar o amigo, matar o vizinho, enforcar o cara estressado que buzinou para a gente no trânsito… Não há crime nenhum ocorrendo, não há ação, apenas pensamento. Mas, no filme, o pensamento de Emma evoluiu para o planejamento, um passo além do aceitável. Ou seria aceitável?

Um único desvio de conduta na vida é suficiente para destruir tudo o que foi construído posteriormente? Esta ação, mesmo que repugnante, implica nunca alcançar a absolvição, nem do outro, nem da sociedade, nem de si mesmo? Até onde vai a autoridade moral de cada um para julgar o próximo? E até onde vai o ônus de ser julgado?
Não fosse a confissão, o drama nem existiria. Então, após proferi-la, além da confiança quebrada, o que mais pesa é estar com alguém considerado socialmente inadequado. Surge um medo latente de saber o que mais aquela mente seria capaz, ou, talvez pior, de nos lembrar do que nossa própria mente é capaz.
Somos extremamente complexos e, se analisarmos bem, somos todos socialmente inadequados em algum ponto da nossa consciência, porque, para vivermos em sociedade, precisamos nos conter e ser contidos. Ninguém existe por completo a não ser em sua própria mente, pois somos todos limitados por regras sociais. Nosso lado inadequado e antissocial só não é exposto porque não expressamos nossos pensamentos e desejos moralmente inapropriados. “Ah, Djan, mas eu não seria capaz de planejar um massacre…”, mas nem tudo precisa ser nessa magnitude para ser feio, inapropriado, inaceitável, tabu, indizível.
No caso em questão, não se trata apenas da confissão desprezível de Emma e de quem ela é de verdade. A maior tensão é saber se Charlie conseguirá recuperar a confiança que tinha na parceira. É ser capaz de discernir o que é aceitável na humanidade de cada um, levando em consideração a sua própria, deixando de lado qualquer tipo de hipocrisia, e determinar se a pessoa merece sua confiança ou o seu receio.
É ter a segurança de que superar um erro como esse é a escolha certa, a ponto de decidir se a parte perturbadora de uma pessoa é suficiente para invalidar o que sempre se conheceu até o momento da descoberta. Isso diz mais sobre a confiança em si e em suas escolhas do que sobre aquela que se perdeu no outro. É mais sobre Charlie do que sobre Emma.
E você, perdoaria seu parceiro se ele tivesse planejado matar um bebê panda?