No extremo Norte de Roraima, a pequena Pacaraima se tornou símbolo da crise migratória venezuelana. Com pouco mais de 19 mil habitantes, segundo o Censo de 2022, o município é a principal porta de entrada para quem cruza a fronteira em busca de segurança, trabalho e acesso a serviços básicos. Desde 2015, mais de 1,1 milhão de migrantes passaram pela cidade, transformando profundamente sua rotina.

Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
A fronteira viva
Pacaraima está a 215 km de Boa Vista e ligada ao restante do Brasil pela BR-174. Do outro lado da fronteira, fica Santa Elena de Uairén, cidade venezuelana que sempre manteve intensa circulação com o município brasileiro. Essa relação, no entanto, mudou radicalmente com o agravamento da crise política e econômica na Venezuela.
Só em 2025, Pacaraima recebeu mais de 96 mil novos migrantes, segundo o Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra). Em outubro, foram mais de 11 mil entradas em apenas um mês.
Cotidiano transformado
A presença venezuelana é hoje parte da paisagem da cidade. Espanhol se mistura ao português nas ruas, e migrantes trabalham em supermercados, restaurantes, oficinas e no comércio informal. Muitos chegam a pé, carregando mochilas e crianças, em busca de alimentação e atendimento médico.
A migração também impulsionou mudanças econômicas. Pacaraima foi a cidade que mais cresceu proporcionalmente em Roraima na última década e atingiu uma taxa de adesão ao PIX de 550%, com 106 mil transações mensais para uma população de apenas 19 mil habitantes.
Operação Acolhida
Criada em 2018 e comandada pelo Exército, a Operação Acolhida estruturou triagem, vacinação, regularização de documentos e interiorização de migrantes para outros estados. A cidade passou a conviver com abrigos, equipes de saúde, militares e organizações humanitárias. Ainda assim, muitos venezuelanos vivem fora das estruturas oficiais, alugando quartos ou ocupando imóveis.
Tensões e adaptação
Pacaraima também foi palco de momentos críticos. Em agosto de 2018, confrontos entre brasileiros e venezuelanos marcaram a cidade, que chegou a ser descrita como “território em tensão constante”. Desde então, a convivência se estabilizou, mas episódios de insegurança ainda preocupam moradores.
Vozes da migração
Migrantes como José González, de 48 anos, relatam a dor de deixar a Venezuela, mas também a esperança de reconstruir a vida no Brasil. “A Venezuela nos dói. O que a gente espera agora é que tudo se resolva pelo diálogo. Quem sofre sempre é o povo inocente”, disse.
Já Elizabeth Rincón, de 39 anos, que chegou há menos de um mês, afirma que a saída de Maduro não traz alívio imediato. “Não me sinto aliviada, porque não sabemos o que vai acontecer agora. Tiraram Maduro, e depois? A gente não sabe. Deixamos tudo nas mãos de Deus.”
Conclusão
Pacaraima é hoje um retrato vivo da crise venezuelana. A cidade pequena, que antes vivia da dinâmica fronteiriça tradicional, tornou-se epicentro de uma das maiores ondas migratórias da América Latina. Entre tensões, solidariedade e adaptação, Pacaraima mostra como comunidades de fronteira podem se transformar em espaços de resistência e acolhimento diante de crises humanitárias.
Com informações do G1.