Imagine poder trabalhar no momento do dia em que você se sente mais disposto e produtivo. Essa é a proposta do “chronoworking”, modelo de trabalho que respeita o ritmo biológico individual dos colaboradores, também conhecido como cronotrabalho.

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Criado pela jornalista britânica Ellen C. Scott, o conceito ganha força no Brasil, embora ainda não exista uma legislação específica. Nele, o funcionário organiza sua rotina de acordo com o próprio cronotipo — ou seja, se é mais produtivo pela manhã, à tarde ou à noite.
O objetivo é claro: melhorar a qualidade de vida e o desempenho profissional, respeitando a individualidade de cada um.
Flexibilidade que se traduz em produtividade
Empresas como a Everymind e a Homedock já adotaram o modelo no país. Na Everymind, por exemplo, 90% dos mais de 500 colaboradores têm liberdade para definir o próprio horário de trabalho. O único requisito é o alinhamento com a liderança, a equipe e os clientes.
“Laerte Nogueira”, líder de equipe da empresa, inicia seu expediente às 11h e garante que isso trouxe mais equilíbrio entre vida pessoal e profissional. “Consigo ficar mais tempo com meu filho e à noite sou mais produtivo”, diz.
Na Homedock, a flexibilidade é aplicada conforme o setor. Áreas como atendimento e logística ainda exigem horários fixos, mas nas demais o horário é moldado conforme o perfil do colaborador — algo avaliado desde a contratação.
“Pensamos na individualidade. Cada um entrega resultados de formas diferentes, de acordo com o perfil e o sistema biológico”, afirma Eliane Pencinato, gerente de gente e gestão da empresa.
E a legislação?
A CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) ainda não trata do “chronoworking”, o que exige atenção por parte das empresas.
Pontos importantes da legislação atual:
- Jornada padrão: até 8 horas diárias e 44 horas semanais;
- Adicional noturno: 20% para quem trabalha entre 22h e 5h;
- Intervalo de 11 horas entre um turno e outro (interjornada);
- Alterações no contrato só podem ocorrer com consentimento mútuo e sem prejuízo ao trabalhador (art. 468 da CLT).
Especialistas reforçam que o modelo pode ser adotado, desde que respeite essas regras e, preferencialmente, esteja formalizado no contrato de trabalho.
O que é o ritmo biológico?
O relógio biológico é um sistema interno que regula funções essenciais do corpo, como sono, fome e produtividade. Ele varia de pessoa para pessoa, influenciado por fatores genéticos e ambientais.
Essa variação é o que define os chamados cronotipos:
- Matutino: mais ativo nas primeiras horas do dia;
- Vespertino: mais produtivo à tarde ou à noite;
- Intermediário: flexível, sem um horário preferido definido.
Respeitar esses ritmos evita privação de sono, que pode causar fadiga, problemas de memória, alterações hormonais e até doenças cardiovasculares.
Vale a pena?
Para especialistas, o chronoworking pode reduzir o estresse, o burnout e aumentar a motivação e produtividade, desde que bem orientado.
Além disso, a flexibilidade tem se mostrado uma estratégia eficaz de retenção de talentos, inclusão e diversidade, especialmente em grandes centros urbanos, onde deslocamentos longos comprometem a qualidade de vida.
“Não é sobre o relógio, e sim sobre resultados. As empresas que entenderem isso sairão na frente”, diz Pedro Camargo, professor da FGV.
A advogada trabalhista Fabiana Fittipaldi ressalta, no entanto, que setores como indústrias, bancos e hospitais podem ter dificuldade em implementar o sistema por conta das atividades operacionais fixas.
Com informações do G1.