Casos de intoxicação por metanol misturado a bebidas alcoólicas têm crescido no Brasil, especialmente no estado de São Paulo, segundo autoridades de saúde. Embora o consumo inicial possa parecer inofensivo, os efeitos da substância no organismo evoluem rapidamente para quadros graves, com risco de cegueira irreversível e até morte.

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A confusão começa nas primeiras horas após a ingestão. O corpo humano trata o metanol como se fosse etanol — o álcool comum presente em bebidas — e inicia seu metabolismo no fígado. A enzima álcool desidrogenase transforma o metanol em formaldeído e, posteriormente, em ácido fórmico, compostos altamente tóxicos para o organismo.
Nas primeiras 12 horas, os sintomas são discretos e enganosos. O paciente pode apresentar náuseas, tontura, dor abdominal e dor de cabeça, semelhantes aos de uma embriaguez comum. No entanto, exames laboratoriais já podem indicar alterações significativas, como queda nos níveis de bicarbonato e aumento do osmolar gap, sinais de acidose metabólica em desenvolvimento.
“A pessoa pode achar que está apenas bêbada, mas o fígado já está fabricando o veneno”, alerta o infectologista Igor Mochiutti, do Hospital Metropolitano Lapa.
Entre 12 e 24 horas após o consumo, os sintomas se tornam mais específicos e perigosos. O ácido fórmico ataca as mitocôndrias das células, comprometendo a produção de energia. Os primeiros tecidos afetados são os nervos e a retina, o que leva a visão borrada, fotofobia e a sensação de enxergar pontos luminosos — descrita por pacientes como “chuva de pixels”.
“O nervo óptico sofre duplamente: pela falta de energia e pela degeneração das fibras nervosas. A perda visual pode se tornar irreversível em pouco tempo”, explica Mochiutti.
A acidose metabólica se intensifica, provocando respiração acelerada, fraqueza, confusão mental e sobrecarga nos pulmões e no coração. Se não tratado, o quadro evolui para falência múltipla de órgãos em até 48 horas. O sistema nervoso central é atingido de forma agressiva, com risco de convulsões, coma e arritmias cardíacas.
“Não há um relógio exato, mas após 48 horas sem intervenção, as chances de reversão dos danos neurológicos e visuais caem drasticamente”, afirma Luis Fernando Penna, gerente médico do Pronto Atendimento do Hospital Sírio-Libanês.
O tratamento inclui o uso de antídotos como fomepizol — que bloqueia a enzima responsável pela metabolização tóxica — ou o próprio etanol, que compete pela mesma via enzimática. Em casos graves, a hemodiálise é necessária para remover rapidamente o metanol e seus metabólitos.
Especialistas alertam que apenas testes laboratoriais podem detectar a presença de metanol em bebidas. Por isso, é fundamental que consumidores evitem produtos de origem duvidosa e busquem atendimento médico imediato ao menor sinal de intoxicação. Cada hora conta.
Com informações do G1.