A jornalista Mariam Abu Dagga, de 33 anos, foi morta em um bombardeio israelense na Faixa de Gaza enquanto cobria os impactos da guerra sobre civis. Antes de sua morte, deixou uma carta ao filho de 13 anos, Ghaith, que havia sido evacuado para os Emirados Árabes no início do conflito. “Você é meu amor, meu coração, minha alma”, escreveu Mariam, em um dos trechos mais emocionantes da mensagem.

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A carta, compartilhada por colegas e familiares, revela a consciência da jornalista sobre os riscos que enfrentava diariamente. “Quero que você reze por mim e não chore por mim, para que eu possa permanecer feliz. Quero que você levante alto minha cabeça, trabalhe duro, se destaque e seja capaz. Quando você crescer, se casar e tiver uma filha, chame-a de Mariam em minha homenagem”.
Mariam trabalhava para a Associated Press e outras agências internacionais, registrando a fome, os bombardeios e a destruição em Gaza. Ela foi morta em um ataque ao Hospital Nasser, junto com outros quatro jornalistas e pelo menos 15 civis. Segundo relatos, socorristas também foram atingidos em um segundo bombardeio enquanto tentavam salvar feridos.
A guerra em Gaza se tornou o conflito mais letal para jornalistas na história contemporânea. De acordo com dados da ONU, 247 profissionais da imprensa foram mortos desde o início dos confrontos em 2023. O número supera as mortes de jornalistas nas duas guerras mundiais, na Guerra do Vietnã, no Camboja, na ex-Iugoslávia e no Afeganistão.
Artur Romeu, diretor da Repórteres Sem Fronteiras para a América Latina, afirmou que os ataques não são isolados, mas parte de uma tendência de repressão à cobertura jornalística. “Há destruição de redações, restrições à entrada de correspondentes estrangeiros e ataques deliberados contra profissionais identificados”, disse Romeu em entrevista ao podcast O Assunto.
A ausência de jornalistas em campo compromete o direito da sociedade à informação. “Sem cobertura independente, o que resta são versões oficiais e propaganda de guerra”, alertou Romeu.
A morte de Mariam Abu Dagga e sua carta póstuma se tornaram símbolo da vulnerabilidade dos profissionais da imprensa em zonas de conflito. Em Gaza, escrever testamentos e despedidas tornou-se prática comum entre jornalistas, diante da incerteza de sobrevivência. A mensagem de Mariam é, ao mesmo tempo, um gesto de amor e uma denúncia silenciosa sobre os limites impostos à liberdade de imprensa.
Com informações do G1.