As tensões entre os Estados Unidos e a Venezuela atingiram um novo patamar após o presidente norte-americano, Donald Trump, confirmar ter autorizado operações secretas da CIA no território venezuelano. O anúncio, feito durante uma coletiva na Casa Branca, foi acompanhado pelo sobrevoo de bombardeiros estratégicos B-52 próximo à costa do país sul-americano, gesto que especialistas consideram uma clara demonstração de força e possível prelúdio de uma ofensiva militar.

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Trump afirmou que as ações fazem parte do combate ao narcotráfico e à segurança nacional dos Estados Unidos, alegando que a Venezuela estaria enviando drogas e criminosos ao território americano. “Cada barco que destruímos, salvamos 25 mil vidas de americanos”, declarou o presidente, acrescentando que estuda medidas terrestres contra cartéis de drogas. O governo venezuelano reagiu com veemência, classificando a iniciativa como uma tentativa de “golpe de Estado da CIA” e um ato de “belicismo”.
Desde agosto, Washington vem intensificando sua presença militar no sul do Caribe, com o envio de navios, um submarino nuclear e centenas de soldados para a região. Oficialmente, a operação é apresentada como parte de um esforço para conter o tráfico internacional de entorpecentes, mas a Casa Branca também acusa Nicolás Maduro de liderar o chamado Cartel de los Soles, apontado como uma organização narcoterrorista. O Departamento de Justiça dos EUA chegou a oferecer uma recompensa de 50 milhões de dólares por informações que levem à prisão do líder venezuelano.
De acordo com o jornal The New York Times, as movimentações militares e as operações secretas da CIA teriam como objetivo final a derrubada do governo Maduro. O especialista em política internacional Maurício Santoro, do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha do Brasil, avalia que o cenário indica uma ação político-militar de grandes proporções. Segundo ele, os EUA podem estar se preparando para um ataque de larga escala, com possíveis alvos estratégicos e até tentativas de captura de autoridades do regime.
Santoro observa que, embora o contingente militar atual não seja suficiente para uma invasão e ocupação territorial, o discurso de Trump e a retórica de “combate ao narcoterrorismo” ajudam a moldar a narrativa de legitimidade para uma eventual intervenção. O professor também aponta que o petróleo e as riquezas minerais da Venezuela seguem sendo fatores centrais nesse tabuleiro geopolítico, já que o país detém as maiores reservas do mundo — mais de 302 bilhões de barris, segundo o Relatório Mundial de Energia de 2025.
A escalada diplomática se intensificou ainda mais com o recente sobrevoo de três bombardeiros B-52 em uma área próxima à fronteira venezuelana. Embora o voo tenha ocorrido fora do espaço aéreo do país, a manobra foi interpretada como provocação direta. Para Santoro, trata-se de um “ensaio geral” para futuras operações, um gesto de intimidação e um teste das defesas aéreas venezuelanas.
Em resposta, Nicolás Maduro afirmou em pronunciamento que “a Venezuela rejeita qualquer tentativa de golpe e mudança de regime promovida pela CIA”. O presidente acusou os Estados Unidos de repetirem padrões de intervenção que, segundo ele, levaram à destruição de países como Iraque, Líbia e Afeganistão. O Ministério das Relações Exteriores venezuelano também divulgou uma nota acusando Washington de tentar legitimar uma operação militar para se apropriar das reservas de petróleo do país.
Enquanto isso, os Estados Unidos continuam realizando bombardeios contra embarcações supostamente ligadas ao narcotráfico. O ataque mais recente, autorizado por Trump, destruiu um barco em águas internacionais perto da costa venezuelana, resultando na morte de seis pessoas. O presidente defendeu a ação, afirmando que se tratava de um “golpe preciso contra redes ilícitas de narcoterrorismo”.
Organizações internacionais, como a Human Rights Watch, condenaram os ataques, classificando-os como execuções extrajudiciais e alertando para violações do direito internacional. O Conselho de Segurança da ONU também expressou preocupação com a escalada militar e o risco de uma guerra na América do Sul.
Maduro, por sua vez, pediu à comunidade internacional que investigue os bombardeios, alegando que as vítimas eram pescadores civis. Para analistas, o impasse entre Caracas e Washington reflete não apenas uma disputa por poder e influência, mas também o ressurgimento de uma estratégia norte-americana de intervenção direta na região — algo que não se via desde a Guerra Fria.
Com informações do G1.