O governo argentino liderado por Javier Milei anunciou na última terça-feira (2) uma nova intervenção no mercado de câmbio, contrariando sua própria agenda ultraliberal. A medida, que visa conter a desvalorização do peso e garantir a oferta de dólares, ocorre por meio de operações diretas de compra e venda realizadas pelo Tesouro Nacional.

Foto: Natacha Pisarenko/AP
A decisão surpreendeu analistas e investidores, já que Milei vinha defendendo uma política de câmbio flutuante desde o fim do chamado “cepo” — sistema de controle da compra de dólares — em abril deste ano. À época, o presidente comemorou o fim das restrições como um avanço rumo à liberalização da economia.
No entanto, a recente queda das reservas internacionais, que chegaram a cerca de US$ 7 bilhões negativos, e a pressão inflacionária reacenderam preocupações sobre a estabilidade da moeda. Economistas apontam que a valorização do dólar encarece importações e ameaça os avanços obtidos no controle da inflação, que chegou a ultrapassar 200% ao ano antes da posse de Milei.
Segundo Carlos Henrique, diretor de operações da Frente Corretora, a intervenção representa uma mudança significativa na condução da política econômica. “O governo abandona temporariamente a ideia de que o mercado deve se autorregular e assume um papel de controle, característico de políticas mais heterodoxas”, afirmou.
Além dos desafios econômicos, o governo enfrenta uma crise política provocada por denúncias de corrupção envolvendo Karina Milei, irmã do presidente e secretária-geral da Presidência. Áudios vazados atribuídos ao ex-chefe da Agência Nacional para a Deficiência, Diego Spagnuolo, acusam Karina e o subsecretário Eduardo “Lule” Menem de exigir propinas de indústrias farmacêuticas em contratos públicos.
O escândalo abalou a base de apoio de Milei e gerou instabilidade no Congresso, onde o presidente já vinha acumulando derrotas legislativas. A aprovação popular também recuou, chegando a 41% às vésperas das eleições provinciais de Buenos Aires, marcadas para o próximo domingo (7).
Diante desse cenário, o governo endureceu as regras para operações em moeda estrangeira e proibiu os bancos de ampliar posições em câmbio à vista no último dia do mês. A medida busca evitar manobras especulativas que pressionem ainda mais o peso argentino.
A nova intervenção cambial, embora pontual, levanta dúvidas sobre a capacidade do governo de manter sua agenda liberal em meio a uma conjuntura marcada por instabilidade política, crise fiscal e desconfiança internacional.
Com informações do G1.