Facções expandem domínio e elevam índices de violência nas cidades da Amazônia Legal, aponta estudo do FBSP

Um levantamento divulgado nesta quarta-feira (19) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) revela um cenário de expansão do crime organizado na Amazônia Legal e identifica as 20 cidades mais violentas da região. O estudo mostra que a presença de facções cresceu de forma acelerada e já alcança 45% dos 772 municípios distribuídos por nove estados — Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins.

Foto: Divulgação.

Segundo o FBSP, a análise se baseou nas taxas de mortes violentas intencionais registradas nos últimos três anos, calculadas a cada 100 mil habitantes. As cidades foram agrupadas conforme o porte populacional e, dentro de cada categoria, destacaram-se aquelas com os índices mais altos de letalidade. Esta é a quarta edição do estudo Cartografias da Violência na Amazônia, feito em parceria com institutos dedicados à pesquisa climática, social e territorial.

A expansão das facções é apontada como fator central para explicar a escalada da violência. De acordo com David Marques, gerente de projetos do Fórum, disputas pelo controle territorial, dissidências internas e a atuação em áreas de garimpo ilegal impulsionam os conflitos. Ele cita o Mato Grosso como exemplo crítico: seis das 20 cidades com maiores taxas de homicídio estão no estado, onde facções e garimpeiros armados disputam poder em regiões estratégicas, como a Terra Indígena Sararé.

O estudo detalha que fatores territoriais e logísticos desempenham papel decisivo. Municípios próximos a fronteiras internacionais, atravessados por rodovias federais ou situados em áreas de intensa atividade ambiental irregular tornam-se corredores para o tráfico de drogas e outros crimes. É o caso de Vila Bela da Santíssima Trindade (MT), próxima à Bolívia; Calçoene (AP), cortada pela BR-156; e Novo Progresso (PA), situada ao longo da BR-163 e marcada por conflitos fundiários.

Na lista, aparecem ainda cidades onde a violência envolve múltiplas frentes, como Mocajuba (PA), onde metade das mortes violentas decorre de ações policiais, e Coari (AM), rota hidroviária estratégica entre Peru, Colômbia e Brasil. Territórios como Altamira e Itaituba, no Pará, continuam impactados por desmatamento, garimpo e disputas entre grupos como Comando Classe A e Comando Vermelho.

O mapeamento do FBSP também identifica 17 facções diferentes atuando na região. O Comando Vermelho (CV) lidera em abrangência, presente de forma hegemônica ou em disputa em 286 municípios — um crescimento de 123% desde 2023. Já o Primeiro Comando da Capital (PCC) aparece em 90 cidades, mantendo influência sobretudo em rotas do Centro-Sul.

Marques explica que o modelo de expansão do CV, mais descentralizado, facilita a criação de “franquias” regionais, o que contrasta com a estrutura hierárquica e centralizada do PCC. Para o pesquisador, o interesse do CV pelo controle territorial, tanto no varejo quanto no atacado do tráfico, impulsiona sua presença na Amazônia. Já o PCC atua prioritariamente em parcerias e corredores estratégicos para exportação internacional.

A incidência de facções varia entre os estados conforme a proximidade com fronteiras internacionais. O Acre tem presença de grupos criminosos em todos os seus 22 municípios, enquanto o Tocantins registra apenas 12% de suas cidades com atuação de facções. Amapá, Pará e Mato Grosso também figuram entre os estados mais afetados, com índices superiores a 60%.

Mesmo com leve queda no número total de mortes violentas — 8.047 casos em 2024 — a Amazônia Legal segue 31% acima da média nacional. O Maranhão foi o único estado da região com alta na taxa de homicídios no período, enquanto o Amapá concentra algumas das cidades mais letais do país. Outros indicadores expõem vulnerabilidades profundas, como feminicídios 19% acima da média nacional, aumento de estupros com 80% das vítimas menores de 14 anos e a criação de “normas de conduta” impostas por facções às mulheres em territórios dominados.

Com avanço em múltiplas frentes — do tráfico internacional às economias ilegais como o garimpo — as facções ampliam seu alcance e pressionam municípios que historicamente já enfrentam fragilidades estruturais. O estudo aponta que a combinação de fronteiras abertas, áreas remotas e conflitos agrários torna a Amazônia um território cada vez mais disputado pelo crime organizado, com impactos diretos na vida das populações locais.

Com informações do G1.

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