Um novo estudo conduzido por físicos brasileiros reacendeu a discussão sobre o ponto exato da chegada da frota de Pedro Álvares Cabral em abril de 1500. Tradicionalmente, a historiografia aponta Porto Seguro, na Bahia, como o local do desembarque. Porém, a pesquisa publicada no Journal of Navigation, da Universidade de Cambridge, sugere que o primeiro contato teria ocorrido no litoral do Rio Grande do Norte.

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Os pesquisadores Carlos Chesman (UFRN) e Cláudio Furtado (UFPB) analisaram numericamente dados da famosa Carta de Pero Vaz de Caminha, cruzando informações sobre distâncias em léguas, descrições topográficas, fauna e flora, além de ventos, correntes marítimas e profundidades costeiras. A partir de cálculos físicos e simulações computacionais, reconstruíram a rota da frota portuguesa desde Cabo Verde até o avistamento de terra em 21 de abril de 1500.
Segundo os cálculos, a velocidade média das embarcações foi de 5,6 km/h, compatível com navios da época. O estudo destaca o papel da força de Coriolis, que desvia massas de água e ar devido à rotação da Terra, influenciando a trajetória das caravelas. Para os autores, seria improvável que a frota tivesse seguido em linha reta até Porto Seguro; as correntes e ventos teriam conduzido os navios ao litoral potiguar.
Um dos pontos centrais da análise é a identificação do “monte grande, mui alto e redondo” descrito por Caminha. O Monte Pascoal, na Bahia, com 540 metros, poderia ser visto a mais de 80 km de distância, o que não corresponde ao relato da carta. Já o Monte Serra Verde, em João Câmara (RN), com 240 metros, se encaixaria melhor na descrição, incluindo a presença de outras elevações ao sul.
Outro elemento é o ancoradouro citado por Caminha, capaz de abrigar mais de 200 embarcações. Imagens de satélite mostram que a Praia do Marco, em Touros (RN), possui dimensões compatíveis, enquanto Porto Seguro teria metade do tamanho. Além disso, a referência às “barreiras vermelhas” ao sul coincide com os penhascos da Barreira do Inferno, próximos a Natal.
A hipótese de chegada em território potiguar não é inédita. Historiadores como Lenine Pinto e Luís da Câmara Cascudo já haviam levantado essa possibilidade. O novo estudo, porém, reforça a tese com cálculos físicos e simulações modernas, propondo uma revisão científica da narrativa tradicional.
Para Chesman, o trabalho mostra como as ciências exatas podem contribuir para a história. “Os números não mudam. 660 léguas ontem e hoje é a mesma distância”, afirmou. Os autores agora buscam diálogo com historiadores para amadurecer a discussão e avaliar o impacto dessa hipótese na compreensão da chegada dos portugueses ao Brasil.
Com informações do G1.