Pelo menos doze mulheres que frequentam o cenário do forró no Brasil e na Europa denunciaram a divulgação e comercialização de suas imagens íntimas em grupos do aplicativo Telegram. O caso foi encaminhado ao Ministério Público Federal (MPF) e está sob investigação da Polícia Federal (PF), que apura crimes como pornografia de vingança, assédio sexual, lesão corporal e ameaça.

As vítimas relataram ter conhecido os suspeitos em casas de forró, festivais e escolas de dança. Em muitos casos, os registros íntimos foram feitos sem consentimento em ambientes privados e posteriormente divulgados nos grupos intitulados “Cremosinhas da Putaria” e “Vazadinhas Inéditas”. O conteúdo, segundo os relatos, era compartilhado mediante pagamento e troca de informações pessoais das mulheres.
A Bancada Feminista do PSOL na Assembleia Legislativa de São Paulo acolheu os relatos e encaminhou o caso ao MPF. As parlamentares alertam para a possível existência de uma rede criminosa organizada e internacional voltada à prática de violência sexual e perseguição de mulheres no contexto do forró.
Um dos grupos citados, o “Cremosinhas da Putaria”, chegou a reunir mais de 150 homens. Entre os participantes estariam músicos, produtores, professores e frequentadores de bailes de forró. As regras de ingresso no grupo incluíam o envio de fotos nuas de mulheres, identificação completa, endereço e detalhes sobre suas vulnerabilidades emocionais e comportamentais. A proposta, segundo os próprios integrantes, era “mapear” essas mulheres para relações sexuais, tratando-as como “presas”.
As denúncias vieram à tona após uma das vítimas receber uma mensagem de um desconhecido alertando sobre a exposição de sua imagem no grupo. Ela e outras mulheres relataram sofrer perseguição por ex-parceiros, que também publicaram imagens íntimas em redes sociais e aplicativos de relacionamento com conteúdo ofensivo.
Casos similares foram identificados na Europa. Uma brasileira que vive na Itália desconfia ter sido filmada por dois estrangeiros com quem se relacionou em festivais de forró. Ela teve conhecimento da possível exposição após receber mensagens e convites sexuais no trabalho, onde também viu imagens suspeitas circulando em um celular. O grupo “Vazadinhas Inéditas” seria voltado a compartilhar conteúdo íntimo de mulheres do forró em países como Itália, Alemanha e Portugal.
A iniciativa de acolhimento às vítimas gerou a criação da campanha Frente Fulô – Forró Unido Livre de Ódio, conduzida por ativistas culturais e parlamentares. A ação busca conscientizar o público dos eventos e envolver artistas e casas de shows no combate à misoginia no ambiente do forró. Um dos símbolos da campanha é uma flor de crochê, usada em festivais como forma de protesto e identificação das apoiadoras da causa.
Relatório da ONG SaferNet, especializada em crimes digitais, aponta que mais de 1,25 milhão de brasileiros participam de grupos no Telegram envolvidos com crimes como pornografia não consensual e venda de material íntimo adulterado com inteligência artificial. Os dados foram enviados ao MPF, à PF e a autoridades internacionais.
As casas de shows citadas na investigação responderam de formas diversas. Algumas, como o Canto da Ema e o Baile dos Ratos, manifestaram publicamente repúdio aos atos de assédio e apoio a um ambiente seguro para as mulheres. Outras não se pronunciaram até a publicação da matéria. Em comum, todas reforçaram que os crimes não ocorreram dentro dos estabelecimentos, mas se comprometeram a colaborar com medidas de prevenção e acolhimento.
A Polícia Federal ainda não comentou oficialmente o andamento das investigações, e o Telegram, procurado pela reportagem, não respondeu sobre as medidas adotadas diante da denúncia de uso indevido da plataforma.
As vítimas seguem buscando apoio jurídico e emocional, enquanto ativistas pressionam por uma apuração rigorosa e pela responsabilização dos envolvidos. A orientação é que outras mulheres que se sintam vítimas dessas práticas denunciem por meio da plataforma da SaferNet ou busquem apoio jurídico especializado.
Com informações do G1.