O Brasil registrou, em 2023, o segundo maior nível de emissões de metano de sua série histórica, com um total de 21,1 milhões de toneladas liberadas na atmosfera. O dado foi divulgado nesta quarta-feira (27) pelo Observatório do Clima, rede composta por 162 organizações da sociedade civil, e integra o relatório do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG).

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O levantamento aponta que o país ocupa atualmente a quinta posição entre os maiores emissores mundiais de metano, atrás apenas de China, Estados Unidos, Índia e Rússia. O crescimento de 6% nas emissões, registrado entre 2020 e 2023, é atribuído principalmente à expansão da atividade agropecuária, com destaque para a pecuária bovina, responsável por 14,5 milhões de toneladas do total emitido.
De acordo com o relatório, o Brasil possui o segundo maior rebanho bovino do mundo, com 238,6 milhões de cabeças em 2023 — quase 20 milhões a mais que em 2020. A fermentação entérica dos animais é apontada como principal fonte de metano no setor, que responde por 75,6% das emissões nacionais do gás.
Além da agropecuária, o setor de resíduos sólidos aparece como o segundo maior emissor, com 3,1 milhões de toneladas, provenientes sobretudo de lixo orgânico em aterros e lixões. Em seguida, vêm as mudanças no uso da terra e florestas (1,33 milhão de toneladas), o setor energético (0,55 milhão) e os processos industriais (0,02 milhão).
O metano (CH₄) é considerado o segundo gás de efeito estufa mais nocivo ao clima, sendo até 28 vezes mais potente que o dióxido de carbono (CO₂) no aquecimento global, quando comparado em um intervalo de cem anos. Apesar de menos abundante, seu impacto é mais imediato e intenso.
O relatório do Observatório do Clima foi publicado como adendo à proposta de uma nova Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC), apresentada pela rede em 2024, e visa pressionar o governo brasileiro a adotar medidas concretas de redução do metano antes da realização da COP30, marcada para novembro em Belém (PA).
Em 2021, durante a COP26, o Brasil aderiu ao Compromisso Global do Metano, que prevê a redução de 30% das emissões até 2030. No entanto, segundo o Observatório, o país ainda não apresentou uma estratégia clara para alcançar essa meta. Um relatório anterior da mesma rede, publicado em 2022, indicava que o Brasil poderia reduzir em até 36% suas emissões até 2030, caso ampliasse políticas de combate ao desmatamento, adotasse práticas sustentáveis na agropecuária e avançasse na gestão de resíduos.
David Tsai, coordenador do SEEG, afirma que “para liderar a ambição climática mundial, o Brasil precisa focar em soluções de regeneração florestal, recuperação de solo e adoção de energias renováveis. Ao mesmo tempo, terá de reduzir as emissões de metano, lidando com a magnitude da atividade pecuária, a precariedade da gestão de resíduos sólidos e a pobreza energética”.
Entre as alternativas apontadas pelo estudo estão a melhoria da dieta dos animais, o encurtamento do tempo de abate e o uso de técnicas de melhoramento genético, que permitem aumentar a produtividade sem elevar, na mesma proporção, as emissões. No setor de resíduos, destaca-se a meta de eliminar todos os lixões até 2028, ampliar a coleta seletiva e aproveitar o biogás gerado nos aterros sanitários como fonte de energia.
O relatório também chama atenção para uma lacuna no Inventário Brasileiro de Emissões, que não contabiliza as queimadas em vegetação nativa. Segundo os pesquisadores, essa omissão compromete a precisão dos dados e subestima o impacto das queimadas sobre o clima, especialmente nos biomas Amazônia e Cerrado.
Com informações do G1.