Em meio ao aumento de casos de intoxicação por metanol no Brasil, especialistas alertam para o papel essencial do bicarbonato de sódio como intervenção de emergência. Embora não seja um antídoto, a substância tem sido usada em hospitais para corrigir rapidamente o pH do sangue, evitando que o paciente entre em colapso metabólico enquanto o tratamento definitivo é providenciado.

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O metanol, quando ingerido, é metabolizado pelo fígado e transformado em formaldeído e ácido fórmico — compostos altamente tóxicos que tornam o sangue extremamente ácido. Essa acidose metabólica compromete o funcionamento de órgãos vitais como cérebro, coração e rins, podendo causar cegueira, coma e até morte em poucas horas.
Segundo o médico Luís Fernando Penna, gerente do pronto-atendimento do Hospital Sírio-Libanês, o bicarbonato de sódio atua como um “freio químico”, neutralizando a acidez provocada pelo ácido fórmico. “Ele permite que os órgãos voltem a funcionar em um ambiente mais equilibrado e dá tempo para que o antídoto ou a hemodiálise sejam realizados”, explica.
Os antídotos específicos para intoxicação por metanol são o fomepizol e o etanol farmacêutico, que bloqueiam a ação da enzima responsável por transformar o metanol em substâncias tóxicas. Já o bicarbonato atua em outra frente: ele não impede a formação das toxinas, mas combate os efeitos imediatos da acidose, devolvendo estabilidade ao organismo.
A aplicação do bicarbonato é feita por via intravenosa, em ambiente hospitalar e sob monitoramento constante. O ajuste do pH deve ser preciso, pois tanto o excesso de acidez quanto a alcalinidade em demasia podem colocar a vida do paciente em risco. De acordo com a Nota Técnica nº 360/2025 do Ministério da Saúde e o protocolo da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB), o bicarbonato deve ser administrado de forma “agressiva e controlada” quando o pH sanguíneo cai abaixo de 7,3.
O médico toxicologista Álvaro Pulchinelli, diretor técnico da Toxicologia Pardini do Grupo Fleury, reforça que o bicarbonato é seguro quando aplicado corretamente. “Como qualquer medicamento, há risco se a dose for inadequada. Mas diante de uma intoxicação grave por metanol, esses riscos são menores do que o perigo da acidose não tratada”, afirma.
O Ministério da Saúde confirmou 225 notificações de intoxicação por metanol até 5 de outubro de 2025, sendo 16 casos confirmados e 209 em investigação. Ao todo, 15 mortes foram registradas, duas confirmadas e treze ainda sob apuração. Cerca de 85% das ocorrências se concentram em São Paulo, onde o governo estadual intensificou operações em adegas e distribuidoras, com apreensão de milhares de garrafas adulteradas.
A recomendação dos especialistas é clara: em casos de suspeita de intoxicação por metanol, a busca por atendimento médico imediato é fundamental. O uso do bicarbonato de sódio, quando indicado, pode ser decisivo para salvar vidas e evitar sequelas neurológicas e visuais graves.
Com informações do G1.