No coração de Belém, o mercado Ver-o-Peso abriga uma das tradições mais emblemáticas da Amazônia: os banhos de cheiro preparados pelas erveiras, mulheres que dominam há gerações o saber das plantas medicinais e aromáticas da região. Em frascos coloridos com nomes como “abre caminho”, “chama dinheiro” e “passa no concurso”, elas mantêm viva uma prática que mistura espiritualidade, natureza e cultura popular, reconhecida como patrimônio cultural e imaterial do Pará.

Foto: Divulgação.
As erveiras trabalham em família e transformam ervas típicas da floresta — como arruda, manjericão, alecrim, jasmim, alfazema e a aromática priprioca — em óleos, banhos, pomadas e garrafadas voltados para a saúde física e espiritual. Mais do que simples produtos, os banhos de cheiro são preparados com rezas e intenções específicas, e cada combinação tem um significado simbólico: atrair amor, abrir caminhos, afastar o azar ou trazer prosperidade.
Essa herança cultural carrega influências indígenas, africanas e caboclas, passando de mãe para filha ao longo dos séculos. O ritual está presente em momentos de renovação e celebrações religiosas, como o Círio de Nazaré e a virada do ano, simbolizando o modo amazônico de viver em harmonia com a floresta — não apenas como um espaço natural, mas como uma fonte de cura e sabedoria.
A tradição ganhou destaque internacional recentemente, quando o príncipe William recebeu, em visita ao Museu Paraense Emílio Goeldi, um frasco simbólico de um “banho de cheiro” criado por jovens do Instituto Cojovem, organização paraense que atua com juventudes e clima na Amazônia. O presente, batizado de “cheirinho Atrai Políticas Públicas para a Juventude”, representava o desejo de afastar a crise climática e atrair investimentos para os jovens amazônidas.
O episódio viralizou nas redes sociais e reacendeu o interesse pela prática das erveiras. Para além do exotismo das prateleiras coloridas e dos nomes curiosos dos frascos, o banho de cheiro representa uma sabedoria ancestral que resiste ao tempo, reafirmando o papel das mulheres amazônicas como guardiãs da cultura, da fé e da relação profunda entre o povo e a floresta.
Com informações do G1.