O Nordeste brasileiro voltou a figurar como o epicentro da violência letal no país, conforme aponta o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024, divulgado nesta quinta-feira (24) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Dos 20 municípios com maiores taxas de homicídios, 16 estão localizados na região — uma concentração alarmante que revela o impacto da disputa entre facções criminosas, especialmente pelo controle do tráfico de drogas.

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Maranguape, no Ceará, lidera o ranking nacional com uma taxa impressionante de 79,9 mortes violentas intencionais por 100 mil habitantes. Na sequência, aparecem Jequié, Juazeiro e Camaçari, todas na Bahia, além de Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco. Só a Bahia reúne cinco das dez cidades mais violentas do país, reforçando seu protagonismo negativo na estatística.
O estudo leva em conta homicídios dolosos, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e óbitos causados por intervenção policial. Com isso, fornece um panorama detalhado das dinâmicas violentas que atravessam os centros urbanos com mais de 100 mil habitantes.
Entre os estados, o Amapá aparece como o mais violento do país, com uma taxa de 45,1 mortes por 100 mil. Embora tenha registrado uma queda de mais de 30% em relação ao ano anterior, o estado segue no topo do ranking nacional. Por outro lado, São Paulo continua como referência em controle da violência, com índice de 8,2 mortes por 100 mil habitantes — o menor do país.
O Fórum destaca que as guerras entre facções pelo domínio do tráfico são o principal vetor da escalada de homicídios nas regiões mais atingidas. Além disso, outras questões estruturais contribuem para o quadro preocupante: a insuficiência de políticas públicas efetivas, a vulnerabilidade social em áreas periféricas e o déficit histórico de investimentos em prevenção.
Mesmo diante da queda geral nos números de assassinatos — impulsionada por reduções em algumas regiões do Sudeste e Centro-Oeste — o crescimento de feminicídios e mortes de crianças e adolescentes indica uma mutação dos padrões de violência no Brasil, cada vez mais direcionada contra grupos vulneráveis. Soma-se a isso o aumento nos casos de bullying e cyberbullying, que afetam majoritariamente crianças acima de 10 anos e adolescentes entre 14 e 17 anos.
O Anuário também traz à tona outras estatísticas relevantes: apenas 8% dos celulares roubados ou furtados são recuperados pelas polícias, e um em cada cinco agressores descumpre medidas protetivas judiciais, revelando falhas na aplicação de mecanismos legais de proteção.
Embora os investimentos em segurança pública tenham aumentado 6% em 2024, somando R$ 153 bilhões — com destaque para o crescimento de 60% nas despesas municipais desde 2021 — os dados revelam que os avanços não têm sido uniformes. A realidade violenta de muitas cidades nordestinas desafia a eficácia desses aportes e exige medidas articuladas que vão além do enfrentamento policial.
Em síntese, o Anuário escancara uma geografia da violência que persiste no Brasil, especialmente nas regiões mais marcadas pela desigualdade e pela disputa entre facções. Os números apontam para a urgência de políticas mais integradas, que aliem repressão qualificada a ações de prevenção e inclusão social.
Com informações do G1.