O recrutamento e a armadilha
O que parecia ser a oportunidade dos sonhos se transformou em um pesadelo para milhares de pessoas atraídas para o KK Park, um centro de fraudes online em Mianmar. Atraídos por promessas de empregos bem remunerados na Tailândia, trabalhadores de diversas nacionalidades – incluindo brasileiros – foram sequestrados, levados à força para o complexo e obrigados a cometer crimes sob vigilância e tortura.

Foto: Stefan Czimmek/DW
Aaron, um jovem da África do Sul, é um dos sobreviventes que relata sua experiência. Após aceitar um convite de uma suposta empresa de tecnologia, ele foi recebido calorosamente no aeroporto de Bangcoc. No entanto, em vez de ser levado a um hotel, foi transportado por quase oito horas até a fronteira entre Tailândia e Mianmar. De lá, cruzou o rio Moei sob a mira de homens armados, sendo levado para o KK Park, um verdadeiro presídio onde milhares são forçados a aplicar golpes financeiros.
O esquema de fraudes e as condições desumanas
Dentro do KK Park, os trabalhadores eram obrigados a aplicar golpes de investimento em criptomoedas, enganando vítimas nos Estados Unidos, Europa e China. Eles tinham metas semanais a cumprir e seguiam manuais detalhados sobre como manipular emocionalmente os alvos. O esquema, conhecido como pig butchering (abate de porcos), consistia em criar uma falsa relação de confiança com as vítimas antes de tomar todo o seu dinheiro.
As condições de trabalho eram brutais: turnos de 17 horas sem pausas, ameaças constantes e punições severas para quem não atingisse os objetivos. Segundo relatos, quem não conseguisse novos “clientes” até o meio-dia ficava sem almoço. Se um chamado fosse ignorado, o castigo incluía espancamentos e até sessões de tortura.
Envolvimento da máfia chinesa e conexões internacionais
O KK Park não opera isoladamente. Investigações revelam que ele faz parte de uma rede criminosa maior, financiada por empresários chineses ligados ao crime organizado. A operação tem conexões diretas com Wang Yi Cheng, empresário radicado na Tailândia, que movimentava grandes quantias em criptomoedas obtidas pelos golpes. Além disso, o complexo conta com a proteção da Força de Guarda de Fronteira de Mianmar, um grupo paramilitar que controla a região.
O envolvimento da máfia chinesa vai além: um dos nomes ligados ao esquema é Wan Kuok Koi, conhecido como “Broken Tooth”, ex-líder da tríade 14K. Sua organização promove a Nova Rota da Seda, iniciativa do governo chinês para expansão econômica global, levantando suspeitas sobre a participação indireta de autoridades chinesas no financiamento de operações criminosas.
Brasileiros entre as vítimas
A fábrica de golpes de Mianmar também vitimou brasileiros. No último domingo (9), Luckas Viana dos Santos, 31, e Phelipe de Moura Ferreira, 26, conseguiram escapar com a ajuda da ONG internacional The Exodus Road. A dupla foi resgatada junto a dezenas de outros imigrantes explorados e transferida para a Tailândia, de onde devem ser repatriados ao Brasil.
Segundo a coordenadora da ONG no país, Cintia Meirelles, pelo menos outros oito brasileiros seguem mantidos em cativeiro, forçados a cometer crimes sob ameaça de violência.
O fim do pesadelo para alguns, mas não para todos
Aaron e Leon, outro jovem da África Oriental, também conseguiram escapar após se recusarem a continuar trabalhando. Ao ouvirem que seriam vendidos para outra organização, entraram em contato com um ativista australiano, que os ajudou a fugir.
Contudo, milhares de pessoas permanecem presas no KK Park e em outros centros semelhantes na fronteira entre Mianmar e Tailândia. Especialistas alertam que redes criminosas desse tipo estão se expandindo para outras partes do mundo, e as ações das autoridades até agora representam apenas a ponta do iceberg.
Com informações do G1.