Filme: O Amor de Sua Vida (Love of Your Life)

Por Djanga (o “D” é mudo)

O Amor de Sua Vida começa como uma comédia romântica, sem a comédia (talvez eu queira dizer que é um drama). O romance é tão místico, o casal tão amável, uma vida a dois tão perfeita que, por sabermos que algo assim não pode existir nesse mundo, já antecipamos uma tragédia.

A tragédia vem na forma de pandemia de Covid-19 (sim, estamos velhos, o tempo passou e a pandemia já é filme) e o amor da vida que dá nome ao título sucumbe ao vírus. Sua viúva, Maya, desolada por se sentir culpada, pois trabalhava como enfermeira e acreditava ter sido a responsável por transmitir o vírus, resolveu que a melhor forma de lidar com tudo era desaparecer, sem deixar traços.

É aí que começa o filme. Que não é sobre romance, não é sobre amor, não é sobre luto: é sobre culpa. Quando fez suas malas e sumiu do que restou de sua vida e de todos que faziam parte dela, ela estava fugindo da responsabilidade que sentia por ter colocado o marido em risco, por ter sido impotente.

Acontece que a culpa é um sentimento traiçoeiro, pois, para existir, temos que ter um dedo apontado para nós a nos recriminar. E esse dedo pode ser o nosso próprio. Precisamos acreditar no que julgamos de nós mesmos para nos sentirmos culpados. Se não há crença de um comportamento recriminável, podemos sentir qualquer outro sentimento, exceto culpa. Esta pode ser acusada por outrem, mas somos nós que a criamos e alimentamos.

A raiva pode passar, a inveja mudar, a felicidade acabar, o luto se transformar, mas a culpa… a culpa gruda como piche. Ou corrói de dentro para fora. Vira penitência e o penitente não é livre. O culpado não tem direito de amar, de ser feliz, de ser triste, de existir, porque vive para carregar o peso do seu viver. É como Sísifo e o empurrar da pedra montanha acima: não se descansa, não se solta a pedra, não se faz mais nada além da árdua tarefa de carregar seu fardo, de novo e de novo.

Mas você pode pensar: e se a pessoa for perdoada? Um “eu te perdoo” não resolve o problema quando a recriminação vem da própria censura. Para se perdoar, tem-se que entender que ninguém está atado a uma expiação eterna, por pior que tenha sido o objeto do remorso. Um dia, temos que nos livrar do peso que nos impede de seguir em frente, largar a pedra montanha abaixo e continuar como seres imperfeitos que somos. Não é esquecer, é lembrar. Lembrar que somos falhos, mas a vida não é penitência.

Nos filmes descobrimos isso, eventualmente, viajando sabaticamente pela Europa, aprendendo salsa, tentando arduamente encontrar um novo amor e nos tornando outra pessoa. Na vida, não há outra pessoa a se tornar. Basta nós mesmos, sozinhos, onde quer que estejamos, nos perdoarmos por sermos humanos. Culpados de sermos humanos.

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