Onde assistir: Prime Video
Por Djanga Baiana (o ‘D’ é mudo)
Escolhi o filme em questão não porque seja uma obra-prima (apesar de eu ter gostado bastante), mas porque dá aquele friozinho na barriga pela atualidade das questões tratadas.

O filme começa inocente, como uma história habitual de sogra contra nora, família rica, cheia de filhos, cada um com sua personalidade marcante, casa grande, linda, lago no quintal, pais descolados que fumam maconha, mãe super inteligente, professora universitária e referência no tema que não atrevo a identificar (algo político), pai dono de restaurante (famosa profissão “charmosa” como escritor, dono de floricultura, vendedor de cupcake), festa de aniversário de casamento de gente rica e início de confusão pois, surpreendentemente, a família não é perfeita.
A nora mencionada, Liz, foi aluna da sogra, Ellen, em tempos idos e, enquanto universitária, escreveu uma tese política considerada, digamos, radical, que foi fortemente rebatida pela professora, agora, como dito, sua sogra.
Mas e daí? E daí que nem todo absurdo que se escreve, seja em teses, livros ou, principalmente, na internet, vira realidade, mas alguns têm essa sorte (ou seria azar?). Alguns se desdobram em movimentos, em violências e até elegem presidentes. E é aí que o filme “nora versus sogra” ganha contornos muito mais profundos.

A tese de Liz torna-se um livro best-seller e a ideia é comprada por uma grande empresa (assim entendi) que passa a vender a ideia de um país sem partido (em outras palavras, um único partido) que vai ganhando força e apoiadores radicais. O “não-partido” então passa a controlar tudo e a reprimir aqueles que resistem às suas ideias e não aderiram à Mudança, como é chamado o movimento (The Change).
Ocorre que nem toda mudança significa evolução, não é? E muitas mudanças políticas têm um lugar especial na história de não servirem ao propósito a que se propuseram inicialmente, ao discurso que parecia justo e bonito, até porque, na política, o discurso convence, o poder corrompe.
Entendo que não podemos ser livres por completo se quisermos viver em sociedade (acho que não há outra opção). Sempre tem que haver ordem, leis, alguém que as faça valer, autoridades e uma sociedade que as sigam. O problema é quando quem escreve e garante o cumprimento das leis está acima destas.
O truque de mestre é fazer parecer que escolhemos quem nos representa. É acharmos ter a mais absoluta certeza de que um sistema político é melhor (ou menos ruim) do que o outro. Entretanto, nenhum ideal resiste à máquina e a maioria não tem nem intenção de fazê-lo. O que importa é ganhar o poder. O resto resolve-se depois e o “resto” acaba esquecido. Por que será que dinheiro nenhum basta aos donos do país? Porque dinheiro é poder e o poder não tem limites.
Os dissidentes, seja a quem sirvam, estão escondidos em suas cavernas, por trás de seus computadores, limitados aos seus grupinhos de pessoas pares, nos quais os ímpares não participam. Basta uma voz, um vídeo viralizado, um best-seller para entender que é seguro sair gritando suas ideias na cara de quem não as acata, ou apenas as questiona.
No filme, Liz, escritora da tese em questão e representante do movimento A Mudança, é a pessoa que você menos espera que seja a voz por trás da criação da repressão e da manipulação das massas. Ela é a representação da delicadeza, da educação, da fragilidade, do entendimento, da inocência. Mas torna-se claro que seus “cães de guarda”, sua frente de repressão e seus aliados, a exemplo do seu marido, nada mais são do que peões em seu tabuleiro e ela, o verdadeiro rei nesse jogo, blindado até o fim, até o momento do xeque-mate (não sei se está certo, não jogo xadrez).
Por isso, temos que saber identificar quem está nos conduzindo, quem desperta um movimento e seus ideais. Somente um único ideal, uma única frente de luta, um único partido, um único líder vão contra o mínimo da existência em sociedade: a liberdade, que termina quando a do outro começa. Sempre tem que haver o lado contrário, a discussão, a divergência.
É triste, mas a máxima de que a história se repete é verdadeira. A história deveria evoluir em vez de se repetir. Estejamos prontos para viver o que já aconteceu.
Mas, ei, não sonhe que acabou. Eles virão para construir um muro entre nós, mas sabemos que não vencerão. E ao som de “Don’t Dream It’s Over”, Ellen e seu marido Paul dançaram na festa de aniversário de casamento.
E você? Tem algum problema com sua sogra?