Onde assistir: Apple TV e Amazon Prime Video, infelizmente, para aluguel ou compra.
Por Djanga Baiana (o “D” é mudo)
Em primeiro lugar, devo alertar que Bom Garoto (2025/2026), do qual estamos tratando, não deve ser confundido, sob hipótese alguma, com Bom Garoto, filme norueguês lançado em 2022. Avisado.
O filme em questão trata de uma família aparentemente normal, “família margarina”, que se apelida fofamente de Princesa, Tesouro e Raio de Sol, mas que tem um método, digamos, não ortodoxo de fazer o bem. Por bem, entenda-se sequestrar e manter em cativeiro jovens degenerados para ensiná-los (eufemismo) a tornarem-se “bons garotos”.

A intenção de regenerar alguém é boa, digo até, das melhores, mas de boas intenções o inferno está cheio, não é? Em vez do jovem problemático, em algum momento de sua vida de delitos, drogas e irresponsabilidades, crescer e amadurecer ou até encontrar Jesus, como acontece com muitos, na prisão ou fora dela, a família em questão adianta o lado e usa táticas de tortura e sugestionamento (leia-se, lavagem cerebral) para que a pessoa entenda, de uma vez por todas, que a vida pregressa era muito errada (mau! Mau garoto!). Algo meio Laranja Mecânica, menos dramático e disruptivo, mais palatável ao grande público. Mas neste já vimos o que pode dar muito errado.
A família, entretanto, é contraditória em suas ações, o que confere profundidade à narrativa e é a camada mais interessante de assistir e decifrar. Ao mesmo tempo em que são carinhosos, tradicionais, respeitosos e até comedidos e serenos, talvez até agradáveis, também são rigorosos ao extremo, com o próprio filho e, obviamente, não seria diferente com o “espécime desvirtuado”, refém em seu porão. Uma mistura de “morde e assopra” na dinâmica familiar.
Um exemplo disso é quando a mãe, Kathryn, encontra um maço de cigarros em meio às roupas do filho, que é apenas uma criança que quis experimentar o proibido, e o faz fumar todo o maço, mesmo com a relutância e o sofrimento do garoto, para que este aprenda que fumar é errado. Como dito, tudo com a intenção de transformá-lo numa pessoa digna e de distanciá-lo daquilo que degenera, mas da forma mais sinistra possível.
A princípio, achamos que o patriarca, Chris, é o maestro que rege toda a situação, do cárcere à regeneração do jovem refém, pois sua esposa aparece, no começo, como uma mulher frágil, aparentemente enlutada, protegida pelo marido como uma taça frágil de cristal, mas depois se vê que ela é a verdadeira mente por trás do experimento, sendo o seu marido apenas o executor. Ela é quem autoriza os privilégios a que o prisioneiro tem direito, ela é quem disciplina o filho da forma que lhe convém e é ela quem deve ser agradada.
Já o jovem encarcerado, Tommy, que começa sua jornada de aprendizado forçado de maneira relutante (compreensível, pois está acorrentado no porão alheio), percebe que continuar sendo quem é (um garoto sem escrúpulos, sem empatia e violento) não é a melhor estratégia para, possivelmente, deixar o cárcere. Então, passa a jogar o jogo dos seus algozes, sendo educado, segurando seus instintos violentos e impulsivos. Entretanto, o que antes era apenas uma estratégia acaba se tornando sua realidade, e ele inicia, de fato, sua jornada para se tornar o tão esperado bom garoto.
O bem e o mal nesse filme são representados como dois extremos, de forma profunda e ambígua, pois, ao mesmo tempo em que Chris e Kathryn querem transformar uma pessoa corrompida em uma boa pessoa, são capazes de praticar um mal tão condenável quanto o cometido pela pessoa que estão disciplinando. É o pretexto de fazer o mal em favor de um bem maior, não necessariamente para fazer a pessoa agir conforme desejado, mas talvez para dar vazão à própria perversão, mascarada de boa ação.
A questão é que ninguém pode ser reduzido a apenas bom ou apenas mau. Esse caminho não é reto nem florido. Há sempre uma história por trás do ser corrompido, assim como por trás do benfeitor (lá ele). Justamente por isso, qualquer método que não envolva autoconhecimento e amadurecimento não será capaz de tornar alguém essencialmente bom. Essa bondade, que não foi naturalmente construída ou despertada, não seria intrínseca e dependeria de uma doutrinação constante. Conhece métodos assim?
Ao ser libertado, Tommy, transformado no tão desejado bom garoto, protege a família que o sequestrou e o torturou, mas que também possibilitou sua mudança para melhor e mais confuso do que isso não fica. Fica sim, ele leva uma amiga, que o acompanha por livre e espontânea vontade, à família, dona de todo o entendimento acerca da bondade (ironia), para, por meio de torturas, pressão, isolamento e controle físico e psicológico, ser regenerada, assim como ele próprio foi, como um fiel angariando mais um ao templo da verdade.
O filme impõe a reflexão sobre o que significa ser mau ou bom e quem define esse limiar. Afinal, um garoto mau deve ser tratado com disciplina. E o bom garoto? Também. A diferença? Nenhuma, está na cabeça do doutrinador.