Onde assistir: No limbo. Está saindo dos cinemas e ainda não chegou aos streamings.
Por Djanga Baiana (o “D” é mudo)
Não sei se posso falar por todos, mas, em algum momento, todos nós já amamos a comédia de Seth Rogen. Em O Convite, ele está em seu MELHOR papel como ator. Além dele, temos Penélope Cruz, Edward Norton e Olivia Wilde, que, além de uma atuação primorosa, também dirige a película e, a cada filme, se firma como uma excelente cineasta, um ganho para as mulheres na indústria do cinema.

O filme começa com diálogos carinhosos que sugerem um casal brincando ao piano. Aquele tipo de interação que vemos em jovens casais apaixonados. Logo depois, vemos duas pessoas que parecem totalmente desconexas entre si e… solteiras. Uma autônoma (sobrecarregada?) que faz tudo de que precisa sozinha, de macacão jeans (jardineira que chama, né?), carregando, sem ajuda, um tapete pesado para dentro de casa (típica mulher independente que pinta a casa e sabe o que fazer com uma furadeira), e a outra pessoa que parece exausta da vida, morta-viva por dentro, com um trabalho medíocre, semblante desolado, vivendo de forma deplorável. Bom, estas duas pessoas são casadas. E são o mesmo casal do começo.
A trama é que este casal, que caiu na rotina e na chatice de um casamento longo e previsível, convida um casal descolado de vizinhos, falantes, bonitos, sexy, que emanam uma certa altivez (talvez porque façam sexo selvagem de madrugada para o prédio todo ouvir…) para um jantar. Começa aí uma comédia que arranca risos (de verdade), mas dentro de uma complexidade que nos faz pensar sobre relacionamentos, o nosso e os demais (mas mais o nosso). Vamos lá.
Antes mesmo dos convidados chegarem, somos testemunhas dos vários (e repetitivos) problemas do casal principal, que discute opiniões e desejos divergentes (não sei se há algo de muito errado comigo, mas me parece um casal normal, tipo um Rui e uma Vani, esmagados pela realidade, e a comédia é não intencional). No meio dessa confusão toda, chegam os convidados e os anfitriões tentam, falhando miseravelmente, disfarçar que estão em meio a um surto.

A mulher quer agradar os convidados a todo custo, enquanto o marido gostaria de estar longe dali. Cenas de qualquer casamento se fazem presentes: marido que esqueceu o compromisso, mulher que quer que tudo seja perfeito, marido que não sabe onde fica o saca-rolhas (no mesmo lugar há 10 anos), mulher que não permite que ele tenha voz de escolha (até porque ele escolheria errado), marido que só segue o fluxo (até porque ele não tem escolha), mulher que implora por proatividade, marido que nem sabe o significado da palavra… Ah, vá! 99% dos casamentos se tornam isso.
Os convidados transantes acabam por erguer um grande espelho figurado. Na presença destes, os anfitriões começam a sentir-se tensamente conscientes de si mesmos, mesmo que não percebam, e veem em seus convidados seus próprios reflexos, não porque se sentem iguais a eles, mas porque, nas qualidades do outro (imaginadas ou não), estão refletidas suas próprias falhas. Se não houvesse outro casal para se comparar, o casamento passaria, magicamente, a ser aceitável? Ou a ideia de “ideal” só existe porque há algo com que se compare?
A cada minuto de filme, passa pelos nossos olhos, quase de forma constrangedora, como somos suscetíveis a achar que a vida do outro é um case de sucesso (como diria um faria-limer) ou um mistério a ser desvendado, quando, na verdade, é uma imagem fabricada da soleira da porta para fora (e nós fazemos exatamente a mesma coisa). Aquele sorriso no elevador, aquela olhada para a roupa do outro, aquele pensamento sobre como o vizinho conseguiu comprar o carro da vez… Julgamos e somos julgados assim que pisamos no mundo (ir)real.
É por isso que os votos de “na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza” não são da boca para fora. São um sopro de descanso dessa vida tão rotulada e analítica. Em casa, com nossos pares, somos despidos de qualquer olhar potencialmente julgador sobre a nossa essência e podemos chegar do trabalho enfadonho, nos jogando no chão, sem ter que fingir que amamos o que fazemos. Podemos usar uma blusa furada no sovaco, nos maquiar enquanto o outro faz xixi… E, por incrível que pareça, essa é a beleza de uma relação saudável, não o contrário.
A roupa bonita só é usada e a casa milimetricamente arrumada pelo evento da presença de outros. Visitas vão chegar? Então, precisamos de um arranjo de flores descomunal, queijos de todos os tipos, um tapete novo para finalizar a composição da sala, aquela louça “de festa” (que espera o momento em que o primeiro-ministro de algum país chegará para tomar um chá das 17h). Não há lugar para erros, não há lugar para falhas. E aí vem a melhor parte: elas reparam no seu tapete novo, elogiam o queijo, a taça, a louça, o apartamento… que validação maravilhosa! Ou melhor dito: validação necessária.
Mas logicamente, como esperado, as falhas vão existir e não vão embora com o toque da campainha. Fingir ser o que não é não é tão fácil assim. O copo de plástico que você ganhou na festa de 15 anos da filha de alguém estará lá para provar. Então, por que temos que vestir uma fantasia de casal perfeito na frente dos outros? Tem que ser “amorzinho, bebezinho, beijinho”? Por que somos adestrados a agir como o casal platônico do imaginário coletivo? Não basta o casal se respeitar e conviver por 20 anos. Tem que mostrar que o amor romântico não morreu. O sexo não só existe, mas também “vai bem, obrigado”, é inovador e frequente. Por que não basta sermos normais e banais? O banal, às vezes, é um respiro, um descanso de ter de ser perfeito, diferente e exclusivo a todo momento.
Mas não. Temos que contar sobre viagens maravilhosas (que estão sendo pagas em 12x no cartão. Nada contra. Acredite) com sua alma gêmea, metade da laranja, complementando suas falas e anedotas em perfeita sincronia (como foi feito 15 vezes antes, em outras ocasiões). Enquanto o outro casal finge que iria para o mesmo destino, não fosse por uma emergência de família (a emergência: a fatura do cartão). Temos que chegar na casa do outro com o melhor vinho (sem entender nada de vinho, afinal, você toma o mais barato) e o outro agradece, fingindo entender do que se trata (mas só toma cerveja e não é Heineken [a classe média grita: blasfêmia!]).
A realidade é universal: quando voltamos para casa, falamos: “Você percebeu que Fulano e Fulana estavam discutindo quando a gente chegou? Você viu que nem se tocaram a noite toda?” Mas o que desejamos, no fundo (ou na superfície mesmo), é nos sentir bem ao saber que o relacionamento alheio é falho como o nosso, que não somos os únicos imperfeitos do mundo. Então, por que desejamos ser perfeitos aos olhos uns dos outros? Ninguém engana ninguém, só nos enganamos a nós mesmos.
Enfim, por que temos que mostrar nosso melhor aos outros e não para nós mesmos? Aplicar essa energia no nosso próprio relacionamento e deixar que os outros façam (ou não façam) o mesmo. Por que não tomar aquele vinho barato na taça de cristal herdada da sua avó, mesmo que sejam só vocês dois, de pijama assistindo a Perdidos e Pelados? Ou tomar sua cerveja artesanal, trazida da Alemanha (isso, daquela viagem que você está pagando) no copo plástico lembrança dos 15 anos de Mickaehlly?
Não adianta fugir. Neste espelho que é a vida alheia, sempre enxergaremos não o que queremos, mas o que de fato somos. Ver a vida de outros casais nos faz refletir sobre a nossa própria vida a dois, o que pode ser positivo se essa reflexão for construtiva. Somos um fracasso ou apenas normais?
E o que há de errado em ser normal? É aguentar peido do marido e ver a mulher de calçola prende-barriga? É! Mas é deixar tudo para lá e pronto? Não! É regular o relacionamento que se tem, usando sua própria régua e não a do vizinho. E, sim, às vezes, a régua de um está em centímetros e a do outro, em polegadas. Não significa que o relacionamento acabou: ou entendemos que os resultados são os mesmos e que apenas a unidade de medida é diferente, ou entendemos que é o momento de buscarmos alguém com uma régua igual à nossa. Tudo é (novamente) normal.
A vida a dois não é um lindo e perfeito suflê. É um suflê. Mas que murcha quando sai do forno. E aí pedimos um delivery, nos jogamos no sofá, colocamos Casamento às Cegas Habibi (o melhor) e esse é o momento mais gostoso. O que os vizinhos estão fazendo? Não importa.
Não tente fazer um suflê. Nunca vi um dar certo.