Fernanda Cristina Pires, professora da rede municipal de São Paulo, faleceu nesta semana aos 49 anos, após uma trajetória marcada pelo enfrentamento do câncer de mama metastático. Em sua última entrevista, concedida ao g1 em outubro, ela descreveu como os cuidados paliativos transformaram sua forma de viver e aliviaram o impacto da doença.

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Diagnosticada em 2016, Fernanda passou por mastectomia, quimioterapia, radioterapia e retirada dos ovários. Em 2019, surgiram metástases no pulmão e nos ossos, seguidas por novas complicações no cérebro e no fígado em 2023. Apesar das reviravoltas, ela afirmava que cada dia era “uma página nova do meu livro”, insistindo em viver com presença e esperança.
Durante a pandemia, Fernanda conheceu a Casa Paliativa e o trabalho da ativista Ana Michelle Soares, o que mudou sua percepção sobre o tema. “Aprendi que paliativo não é desistir. É ter menos dor, menos sofrimento e mais dignidade”, disse. Sem contar com uma equipe integrada, montou sua própria rede de apoio com fisioterapeuta, nutricionista, psicóloga e farmacêutica, embora destacasse a falta de comunicação entre os profissionais.
Além de paciente, tornou-se voluntária em iniciativas como a Heliópolis Compassiva e o Instituto Ana Michelle Soares, onde encontrou acolhimento e apoio. Para ela, os cuidados paliativos significavam qualidade de vida e dignidade, não apenas terminalidade.
Especialistas reforçam essa visão. A médica Bárbara Cury, paliativista, explica que o cuidado deveria começar já no diagnóstico de doenças graves, acompanhando todo o tratamento e não apenas nos momentos finais. O modelo ideal envolve equipes multiprofissionais capazes de lidar com a chamada “dor total”, que abrange aspectos físicos, emocionais, sociais e existenciais.
Apesar dos avanços, o Brasil ainda enfrenta desafios. Em 2024, o SUS registrou 1,2 milhão de atendimentos paliativos, mas apenas 14 equipes concluíram o processo de habilitação dentro da Política Nacional de Cuidados Paliativos. A falta de estrutura e de formação adequada perpetua o estigma de que paliativo é sinônimo de desistência.
Fernanda viveu sob esse cuidado por nove anos e defendia que ele lhe devolveu a vida possível. Mesmo com fadiga intensa e limitações, continuou participando de encontros e rodas de conversa. Cercada pela família, pôde se despedir gradualmente, como desejava. “O sentido da vida hoje? Fazer o que eu gosto, ao lado de quem eu amo. Não me deixar ser anulada”, afirmou em sua última entrevista.
Com informações do G1.