O Brasil tem enfrentado um aumento significativo na frequência e intensidade das ondas de calor nas últimas décadas, e a tendência é que esse fenômeno se agrave nos próximos anos. Um estudo realizado por pesquisadoras da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) indica que os bloqueios atmosféricos, sistemas que impedem a chegada de frentes frias, são os principais responsáveis pelo aumento das temperaturas extremas. Esses bloqueios criam uma bolha de calor, retendo o ar quente e impedindo a formação de nuvens e chuvas. Segundo a pesquisa, até 2071, esses sistemas podem se tornar dez vezes mais potentes, intensificando ainda mais as ondas de calor tanto no continente quanto no oceano.

Foto: FÁBIO VIEIRA/FOTORUA/ESTADÃO CONTEÚDO
A capital paulista é um exemplo claro dessa mudança climática. Antes dos anos 2000, registrava-se, em média, um dia por verão com temperaturas pelo menos 5°C acima da média. Entre 2015 e 2019, esse número saltou para mais de sete dias, e no verão de 2024, foram 23 dias de calor extremo. Além disso, essas temperaturas anormais têm ocorrido fora do verão, como no atual mês de maio, que já enfrenta seu segundo veranico, com manhãs frias, tardes quentes e noites geladas.
O impacto das ondas de calor não é uniforme entre a população. Dados do IBGE mostram que mais de 16 milhões de brasileiros vivem em comunidades onde a adaptação às mudanças climáticas é muito mais difícil. Em regiões periféricas, como a Zona Oeste de São Paulo, moradores enfrentam temperaturas superiores a 30°C dentro de casa, mesmo em dias considerados amenos. Sem acesso a ar-condicionado, muitos recorrem a métodos improvisados, como bacias com água e toalhas molhadas, para amenizar o calor.
O calor extremo também afeta diretamente a saúde. Segundo o patologista e professor da USP Paulo Saldiva, nos 2,5% dos dias mais quentes do ano, o risco de morte por causas naturais, como infarto, AVC e pneumonia, aumenta em até 50%, especialmente entre idosos, crianças e pessoas em situação de vulnerabilidade. Mesmo com medidas para reduzir o aquecimento global, especialistas alertam que o calor intenso veio para ficar e defendem investimentos urgentes em adaptação climática, como a criação de florestas urbanas e o plantio de árvores adequadas.
Com informações do G1.