Cordel: ''O trabalhador suicida que virou santo''


Irrompeu repentinamente, se é que isso não é pleonasmo, Saturnino, que nos primeiros versos não tinha perfil de santo nem de nada, apenas de alguém que havia sido terrivelmente injustiçado. Perdi-me da missiva à amada e enveredei.


O resto pulou do lápis pro papel até que percebi ter terminado a epístola, a qual, como as anteriores, foi pelo correio no dia seguinte. Só no reencontro recuperei o beijo e o original, que ao longo do tempo serviu para três declamações e uma publicação, num pequeno jornal de bairro, em julho de 1996.


Não vou continuar para não ser obrigado a achar outro sinônimo para carta, mesmo porque hoje dizemos e-mail universalmente Quero somente assegurar que, apesar de ter escrito 339 versos neste poema, não tenho palavras para definir o que "O trabalhador suicida que virou santo" significa no meu coração.


Repasso-o a vocês, na esperança de que tenham tempo e paciência para sorvê-lo no fim de semana junino. (Luís Augusto)

 

 

O TRABALHADOR SUICIDA QUE VIROU SANTO

 

I

A novidade num pulo
corria de boca a ouvido
fazendo terrível alarido
assustando até criança:
Saturnino destemido
voltava clamando vingança.

 

II

Logo que o povo inteirou-se
do caso de cabo a rabo
todos eles homes brabo
desde o tempo de menino
deram apoio a Saturnino
que com eles foi criança
correndo na vizinhança
jogando bola na terra
caçando bicho no mato
superando morro e serra
metendo anzol no regato.

Sempre achou toda a cidade
não ser capaz de maldade
o jovem rapaz Saturnino
moço de trato fino
os pé dentro dos sapato.

 

III

O caso que resultou
na morte de Saturnino
há um ano se passou
no interior nordestino
onde havia mil fazendas
produzindo muitas rendas
com tudo que é plantação.
No fim de tudo, a colheita
para o pobre ia a receita
e o remédio pro patrão

 

IV

Numa dessas fazendas
de cana, feijão e milho
Saturnino, moço de brilho
Empregava suas prendas.
Honesto, decente e bom filho
tinha feito um juramento:
trabalhar e andar direito
ter dinheiro e ter respeito
e pedir Rosa em casamento.

Mas nessa mesma fazenda
de milho, feijão e cana
tinha também um banana
puxa-saco e impertinente
perseguia Deus e o mundo
com seu cargo de gerente.
Mandava bater em peão
representando o patrão
maltratava toda a gente.


V

Acontece que o gerente
não gostou que Saturnino
progredisse a cada mês.
E enquanto olhava o inocente
pensava em que destino
podia num golpe fino
aplicar-lhe de uma vez.

Surra não vale a pena
que logo ele volta à cena
eu almoço, ele me ceia.
Bala até que valia
mas se me descobrem um dia
eu posso parar na cadeia.


VI

O gerente que há tempo
com ambição no pensamento
queria ser sócio do dono
temendo ser superado
pelo rival empregado
não desistia do plano
cruel e bem desumano
nascido no peito assassino:
um fim qualquer haveria
de dar ao bom Saturnino.

 

VII

Um dia o patrão viajava
na fazenda só estava
sua filha moça feita.
O gerente na espreita
viu chegado seu momento
partindo logo pra ação.
Na casa grande entrou lento,
barulho, o do coração.
No quarto da pobre pequena
que pobrezinha dormia
ele entrou e sem ter pena
quis ter logo a primazia.


VIII

A moça, branca e assustada,
gritava e se retorcia
mas logo logo seu berro
de força diminuía
trespassada pelo ferro
era dor e agonia.
Seu sonho de jovem morreu
seu coração se aniquila
o homem que ela escolheu
não foi o primeiro da fila.

Gritou e bateu no gerente
fez-se fera em sua frente
na cara dele cuspiu.
Ele ruim como o cão
mandou-a de um tapa ao chão
chutou-lhe a cara e sorriu.
Caiu em cima da moça
já fraca de estupro e de surra
e disse: ói sua burra
vou agora te matar
Meteu-lhe a mão no pescoço
e ela não teve esforço
para poder se salvar.


IX

Devidamente espalhado
o fato fez-se tragédia
caso até nacional
como desvio sexual
misturado com ambição
fosse mesmo coisa rara
nas alcovas da nação.
No dia seguinte do crime
com água, escova e sabão
o sangue daquela moça
estava lavado do chão
mas o caso deu entrevista
foi parar nas revista
jornal e televisão.


X

Na fazenda foi tristeza
foi mesmo o fim da beleza
Com a morte daquela flor.
Amuado que nem jerico
o pai o que tinha de rico
Passou a ter só de dor.

 

XI

Esse ambiente pesado
quadro com a morte moldura
o gerente da amargura
usou para se safar.
Chegou-se ao dono com tino
e segredou: Saturnino
vai ter coisa pra contar.
Que aqui ninguém nos ouça
Mas ele olhava pra moça
Com olhos de gavião
Disse a ela muita graça
E sem conferir sua raça
Quis até correr a mão.

 

XII

O patrão ainda hesitou
em acreditar nessa história
sabia de boa memória
como era o Saturnino
que na igreja tocou sino
servindo de sacristão.
Se adoecia o padeiro
ele só fazia o pão.
Menino educado e ordeiro
pra todos era um irmão.

Mas depois raciocinou:
por que esse meu gerente
com dez anos de batente
iria assim me mentir?
Assim resolveu decidir:
com uma carroça de dinheiro
contratou dez bandoleiro
botou eles para agir.


XIII

Pegaram o bom Saturnino
dormindo o sono dos justos
ele acordou-se num susto
sem entender patavina
mas logo manjou a chacina
que iria acontecer.

Arrancado de sua gente
e gritando o inocente
pra fazenda foi levado.
Com o gerente ao seu lado
promotor da desavença
o velho deu a sentença:
o homem vai ser capado.

Dito isto, isto feito
na raça, na força e no peito
começou a operação.
Num golpe de açougueiro
foi-se o pênis inteiro
no outro voou o cuião.

 

XIV

Consumada a injustiça
como tudo fosse nada
marraram o pobre na estrada
para servir de carniça
aos bando de carcará.
Saturnino se soltou
mas vendo bem seu estado
deu um grito calado
na vida não quis mais pensar.
Não ia viver de vício
jogou-se num precipício
o jeito era se matar.

 

XV

O povo do povoado
amarrado e amordaçado
pelo poder do senhor
fechou-se todo de dor
mas todos tinham esperança
na lenda que já corria
dizendo que vinha vingança
ainda que fosse tardia.

 

XVI

Justamente quando tinha
um ano passado o fato
foi que na cidadezinha
aconteceu o insensato:
em dia de sol bem claro,
como o sol, se bem comparo,
Saturnino apareceu.
Vinha vestido de santo
tudo nele era encanto
o céu ele mereceu.

 

XVII

Assombrado, mas feliz,
o povo foi pra matriz
e pôs o sino a tocar.
E quando mais badalava
era gente que mais chegava
querendo ver bem de perto
as provas desse milagre.
Levaram vela e vinagre
três móio de lírio aberto
queriam saudar o menino
que vinha do lado de Deus
o bom santo Saturnino
chegando pra ver os seus.

E o povo logo se atiça
pedindo ao santo justiça
contra todos os ateus.


XVIII

A cidade reunida
No aconchego da matriz
foi toda ela atraída
pela aura cor de anis
saindo do corpo do santo
quem viu o fato é quem diz.
Lá não tinha diferença
de pobre, médio e doutor
fosse o rei da desavença
naquela pacata cidade
ou fosse o maior covarde
que por lá já apareceu
que nesse dia não houve
privilégio pra ninguém.
As contas do mal e do bem
é que estavam em julgamento,
muita gente passou mal
dos humilde ao maioral,
o dono da prefeitura.
Parecia miniatura
do próprio Juízo Final.

 

XIX

Quando toda a população
lotava a velha igrejinha
ouviu-se uma ladainha
nascida parece no céu.
Só se viu subir chapéu
em ferrenha reverência
pra ver se as deferência
Do Santo Pai Criador
salvava algum pecador.

 

XX

No topo do grande altar
Saturnino contemplava
seu povo, sua audiência.
E falou com contundência
a filhos, pais e avós.
Sendo ele porta-voz
do Senhor que nos governa
todos prestavam atenção
sabiam que santo não erra
pois todo o saber que ele encerra
brota do coração.

 

XXI

Saturnino então falou
olhando os olhos do povo.
A voz dele ressoou
todo mundo ouviu de novo
ele dizer que vingança
Não é uma coisa que preste
que só a fé e a esperança
ele trazia ao Nordeste.
Perdão ele só não tinha
para quem já tirou vida
pois cada crime é ferida
que abre na carne do Pai.
Quem matou portanto vai
bengala, chapéu e terno
curtir calor no inferno.


XXII

Na plateia o pai da moça
escutando tais palavras
azul de medo já estava
ele que já cometeu.
Pediu perdão, se benzeu
mas já estava decretada
a sorte que ele ia ter
a sorte igualmente
atingiria o gerente
seu fim era apodrecer.

 

XXIII

Aos pobres desconsolados
que tinham bom coração
que eram todos explorados
por tudo que era patrão
a palavra resoluta
pregando trabalho e luta
de Saturnino encantou.

O bom Deus, o bom Senhor
nada daria de graça
cada um que por si faça
que Ele lhe ajudará.
Se todos se derem as mãos
em busca de um ideal
um dia o fruto do mal
vai se erradicar do mundo
A Justiça há de vencer
mandando o que é torto e imundo
para o fogo mais profundo
para as mãos do satanás.

Os bons vão viver em paz,
viver felizes da vida.
O que se quiser se faz.
Casa, roupa e comida
isso haverá até demais.
Quem foi justo há de ter
vida eterna e muito mais.

 

XXIV

De cima olhando pra tudo
o olhar de Deus descobre
que o povo já não é mudo
que a terra já chega pro pobre
que a Justiça já é justa
que se ri mais que se chora
e que a felicidade mora
no peito de cada um.

 

XXV

Um coral de dez anum
nove boi, oito macaco
sete marreco, seis pato
cinco cobra, quatro jia
três jegue, duas cotia
e um coelho, com alegria
vai se formar na floresta
para abrilhantar a festa
do povo desse lugar.

 

XXVI

Dito isso Saturnino
lembrando os tempo remoto
o seu tempo de menino
deu um salto de felino
deixando besta os devoto
desapareceu no ar.

 

 

Salvador, 10 e 11 de junho de 1977
Luís Augusto Gomes

 

Luís Augusto Gomes - Por Escrito

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